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O painel reuniu Mariana Carvalho, diretora da Escola Superior de Tecnologia (EST), João Vilaça, vice-presidente do IPCA para a área da investigação e diretor do centro 2Ais, e Luís Ferreira, diretor do novo curso de Engenharia de Dados e Inteligência Artificial. Em análise estiveram a simbiose entre o ensino e o tecido empresarial, o crescimento da infraestrutura científica e a responsabilidade ética na formação das novas gerações de profissionais.
O percurso recente da Escola Superior de Tecnologia do IPCA tem sido pautado por uma adaptação contínua às exigências do mercado de trabalho. De acordo com Mariana Carvalho, a inteligência artificial já consolidou a sua revolução, deixando de ser apenas uma promessa de futuro. Perante este cenário, a instituição desenhou uma trajetória que culmina agora no lançamento de uma nova licenciatura em Engenharia de Dados e Inteligência Artificial, com início previsto para o próximo mês de setembro. Este novo ciclo de estudos vem preencher a base de uma pirâmide formativa que já contava com o mestrado em Inteligência Artificial Aplicada e com o doutoramento em Engenharia da Digitalização. A perspetiva da instituição foca-se na formação integral do indivíduo, combinando as competências técnicas com competências transversais. Para manter a vanguarda, as unidades curriculares têm sofrido uma atualização paulatina e constante, alinhada com as necessidades transmitidas pelas empresas da região através de uma ligação de proximidade.
A evolução da investigação científica no seio do IPCA registou momentos transformadores, desde a reorientação da oferta formativa para as engenharias até à obtenção de espaços laboratoriais adequados. João Vilaça recordou que o corpo docente, inicialmente jovem e associado a unidades de investigação externas, atingiu a maturidade científica necessária para a fundação do centro 2Ais em 2018. Desde então, a unidade demonstrou capacidade de captação de recursos financeiros, contabilizando mais de 15 milhões de euros de financiamento total e mantendo atualmente 6 milhões de euros em carteira para a execução de 24 projetos em curso. Cerca de 70% destas iniciativas são desenvolvidas em parceria direta com o tecido empresarial.
Atualmente, o universo do 2Ais integra 21 membros doutorados e 14 colaboradores, além de 32 alunos de doutoramento e 40 investigadores oriundos de licenciaturas e mestrados. Este ecossistema de 110 pessoas foca-se no desenvolvimento de soluções de inteligência artificial aplicadas, com particular incidência na área da saúde. Os projetos, de caráter multidisciplinar, combinam engenharia informática, eletrónica, design, visualização de dados, gamificação e realidade virtual para resolver problemas reais em coprodução com equipas médicas e empresas. Esta atividade resultou na publicação de artigos em revistas de alto fator de impacto e no registo de patentes de tecnologia própria nos últimos anos.
Para sustentar este crescimento, o IPCA prepara-se para inaugurar no final do corrente mês um novo edifício de 14.000 metros quadrados, dos quais 8.200 metros quadrados serão afetos à investigação e valorização do conhecimento. A nova infraestrutura centralizará as quatro unidades de investigação da instituição e disponibilizará quase 2.000 metros quadrados em regime de open space especificamente para o 2Ais, permitindo acomodar 150 pessoas e mitigar as limitações de espaço atuais, que dividem os investigadores por cinco salas distintas. O complexo incluirá ainda residências destinadas a investigadores deslocados e laboratórios de última geração equipados com salas de cirurgia simuladas e sistemas de robótica.
No plano curricular, a interceção entre o volume de dados disponível e as ferramentas de automação exige uma abordagem metodológica rigorosa. Luís Ferreira sublinhou que, embora os dados e a inteligência artificial não sejam conceitos novos, a responsabilidade atual reside na capacidade de interligar ambos para extrair valor real. O docente apontou a necessidade de diferenciar o papel do analista e do engenheiro de dados, sendo este último o responsável pela criação das infraestruturas fiáveis de recolha e tratamento que transformam dados brutos em conhecimento estruturado.
A transversalidade da inteligência artificial reflete-se nos trabalhos académicos, onde cerca de 80% das propostas de projeto apresentadas pelas empresas na última edição do mestrado em Engenharia Informática envolvem a aplicação direta ou indireta de IA. No entanto, o corpo docente alerta para o risco de dependência tecnológica originado pela facilidade de utilização destas ferramentas. O modelo pedagógico do novo curso visa incutir nos estudantes o sentido de responsabilidade, a robustez e a segurança na conceção de sistemas, contrariando a perceção de que a engenharia de software ou a programação serão obsoletas perante a automação.
A nível internacional, o IPCA integra a aliança RUN-EU, uma rede constituída por nove universidades europeias que colaboram em inovação pedagógica e transferência de conhecimento. Esta parceria viabiliza programas de mobilidade de curta duração para estudantes e investigadores, além de iniciativas conjuntas como o doutoramento em Engenharia da Digitalização, desenvolvido em regime de associação com o Politécnico de Leiria e a Technological University of Shannon, na Irlanda. A aliança disponibiliza ainda uma plataforma centralizada para a partilha de infraestruturas tecnológicas e laboratórios entre os vários países parceiros.
De forma complementar, a atração de talento para a carreira científica permanece um desafio face à concorrência direta do mercado empresarial. O instituto tem recorrido a mecanismos como as summer schools internacionais e a atribuição de bolsas de iniciação científica com a duração de três meses para integrar os estudantes de licenciatura e mestrado em projetos de investigação ativa. O objetivo passa por fomentar o espírito crítico, o discernimento e a capacidade de resolução de problemas complexos, atributos que a direção da escola considera diferenciadores no contexto de trabalho. Mariana Carvalho concluiu reiterando que o papel do docente permanece insubstituível na mediação do conhecimento e no desenvolvimento do rigor moral e ético, aspetos considerados críticos para o futuro da governação tecnológica nas organizações.

