O mercado de entrega de refeições online no Brasil, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, vive um momento particularmente sensível. A entrada de novos operadores ligados a grandes empresas tecnológicas chinesas intensificou a concorrência num setor que, durante anos, foi amplamente dominado pela plataforma brasileira iFood.
Com mais de 200 milhões de habitantes, uma forte adoção de pagamentos digitais e uma vasta rede de estafetas em motociclos, o Brasil tornou-se um alvo natural para empresas tecnológicas que procuram expandir os seus serviços de mobilidade e comércio digital. Neste contexto, duas novas plataformas começaram recentemente a posicionar-se no país.
Uma delas é a Keeta, pertencente ao grupo chinês Meituan, um dos maiores operadores globais de entrega de refeições. A outra é a 99, empresa controlada pela aplicação de mobilidade Didi, que decidiu reforçar a sua presença no setor alimentar. As duas empresas anunciaram investimentos combinados de cerca de 7,6 mil milhões de reais para apoiar a entrada e expansão neste mercado.
Foi precisamente nesta fase de entrada de novos concorrentes que surgiram as primeiras suspeitas levantadas pela iFood. A empresa afirma ter identificado uma série de contactos dirigidos a funcionários seus através da rede profissional LinkedIn. Segundo o diretor-executivo da companhia, Diego Barreto, citado pelo Finacial Times, cerca de 500 trabalhadores terão sido abordados por consultoras estrangeiras interessadas em recolher informações sobre o funcionamento interno da plataforma.
Os pedidos incidiam sobre aspetos considerados sensíveis para qualquer empresa tecnológica que opera numa economia de plataformas: margens de lucro, receitas, novos projetos e tecnologias utilizadas na operação. Em alguns casos, os interlocutores terão oferecido compensações financeiras em troca da participação em entrevistas sobre o negócio.
Para a iFood, estas abordagens ultrapassam os limites de estudos de mercado convencionais e podem representar tentativas de recolha indevida de dados estratégicos, incluindo informação sobre políticas de preços.
A Keeta rejeita qualquer envolvimento em práticas ilegais de recolha de informação. O diretor-executivo da empresa, Tony Qiu, em declarações ao Financial Times, afirma que a companhia segue padrões rigorosos de conduta legal e ética e sublinha que não existe qualquer acusação formal ou processo judicial diretamente relacionado com essas alegações.
Curiosamente, a empresa chinesa afirma também ter sido alvo de incidentes que considera suspeitos. De acordo com a Keeta, pouco depois do lançamento da plataforma na cidade de Santos, um grupo de pessoas terá visitado restaurantes parceiros apresentando-se falsamente como funcionários da empresa.
Durante essas visitas, segundo o relato da companhia, ao Financial Times, terão sido recolhidas fotografias e vídeos dos sistemas utilizados nos estabelecimentos e algumas contas terão sido temporariamente encerradas. O episódio encontra-se atualmente sob análise das autoridades, acrescentando mais um elemento de tensão à disputa entre plataformas.
A rivalidade comercial começou entretanto a ter repercussões no plano judicial. Após denúncias apresentadas pela iFood, as autoridades brasileiras abriram investigações envolvendo antigos trabalhadores da empresa.
Pelo menos quatro ex-funcionários estão a ser analisados pelas autoridades por suspeitas de terem descarregado ou partilhado dados internos da empresa sem autorização. Documentos judiciais indicam que três desses profissionais passaram posteriormente a trabalhar na empresa 99.
Em dois dos casos foram executados mandados de busca e apreensão, tendo sido recolhidos equipamentos eletrónicos para análise forense. Num dos processos, um antigo colaborador é suspeito de ter descarregado informações relacionadas com cerca de 4.900 restaurantes parceiros da plataforma e de ter enviado esses dados para um endereço de correio eletrónico pessoal.
Outro episódio envolve um trabalhador que terá sido contactado por uma consultora sediada na China para responder a perguntas sobre a operação da iFood. O próprio afirmou às autoridades ter recebido cerca de 1.400 dólares pela participação numa entrevista realizada por videoconferência.
A Meituan reconhece que recorre a consultoras externas para estudos de mercado, prática que considera comum na indústria e realizada dentro das exigências legais. A empresa afirmou, ao Financial Times, estar disponível para colaborar com as autoridades sempre que tal seja necessário.
Entretanto, a iFood avançou com processos nos tribunais laborais contra antigos trabalhadores por alegada violação de cláusulas de não concorrência. Já a empresa 99 afirma que não aceita qualquer comportamento irregular relacionado com a utilização de dados obtidos de forma ilegal e sublinha que as suas operações seguem regras internas de conformidade.
Apesar da polémica, o crescimento do setor ajuda a explicar a intensidade desta disputa empresarial. Segundo o Financial Times, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, declarou, um volume de encomendas realizadas através de aplicações deverá atingir cerca de 100 mil milhões de reais em 2025, acima dos 91 mil milhões registados no ano anterior.
Apesar da sua posição dominante, estimada em cerca de 80 por cento do mercado, a iFood enfrenta agora um contexto competitivo diferente. Para muitos restaurantes e estafetas, a chegada de novos operadores é vista como uma oportunidade para aumentar a concorrência num setor onde tentativas anteriores de entrada tiveram resultados limitados.
A Uber Eats abandonou o mercado brasileiro em 2022 e o serviço 99Food retirou-se do país no ano seguinte, antes de regressar agora com novos investimentos.
O que está em jogo ultrapassa a simples competição entre aplicações de entrega. Trata-se também de um teste à capacidade das grandes plataformas tecnológicas chinesas de se expandirem em economias emergentes onde já existem operadores digitais consolidados.
Para o setor tecnológico global, o caso brasileiro revela uma realidade cada vez mais comum: mercados digitais de grande escala transformaram-se em arenas estratégicas onde tecnologia, dados e capacidade financeira se cruzam com disputas regulatórias e judiciais.







