Infraestruturas críticas sob pressão: chaves para compreender e travar a onda de ciberataques

9 de Outubro, 2025

Nos últimos anos, o panorama das ciberameaças que afetam infraestruturas críticas mudou por completo. O que antes era um fenómeno pontual tornou-se parte do dia a dia: os ciberataques já fazem parte do contexto operacional de setores como a energia, os transportes, a indústria ou os serviços essenciais.

E o que está em jogo não é apenas a continuidade do serviço. Falamos também da segurança das pessoas, da reputação das empresas e, em alguns casos, da estabilidade económica ou institucional de um país.

Atualmente, os ataques costumam classificar-se em três grandes tipos:

1. Cibercriminalidade com fins económicos

Este é, de longe, o mais comum. Grupos criminosos conseguem aceder a sistemas utilizando técnicas de engenharia social ou explorando vulnerabilidades conhecidas, para depois lançar ransomware. Cada vez mais recorrem à dupla extorsão: primeiro extraem dados sensíveis e depois cifram os sistemas, exigindo resgate em ambas as frentes. Casos como o do Colonial Pipeline em 2021 demonstraram o enorme impacto económico e mediático que podem ter.

2. Ciberespionagem associada a Estados

Nestes casos, o objetivo não é económico, mas estratégico. O interesse reside em permanecer nos sistemas o máximo de tempo possível sem serem detetados, recolhendo informação crítica ou industrial. O caso do Triton/Trisis, que teve como alvo direto sistemas de controlo industrial, é um dos mais representativos.

3. Ciberataques terroristas ou destrutivos

Embora menos frequentes, este tipo de incidentes pode ter consequências graves. Procuram provocar danos físicos alterando parâmetros de funcionamento, forçando paragens imprevistas ou criando condições inseguras, normalmente em sistemas SCADA. Muitos destes cenários têm sido identificados através de simulações avançadas.

Porque estão a aumentar os ataques

Existem dois fatores principais que têm multiplicado este tipo de ameaças: a digitalização acelerada e a instabilidade geopolítica.

Por um lado, a pandemia obrigou a mudar a forma de trabalhar praticamente de um dia para o outro. O teletrabalho ampliou a superfície de ataque a velocidades que poucos podiam antecipar. Só em 2020, segundo dados da Kaspersky, as tentativas de acesso por força bruta contra RDP aumentaram 242 %, ultrapassando os 3,3 mil milhões. A isto juntou-se a proliferação de malware que se fazia passar por ferramentas de videoconferência ou de mensagens empresariais.

Por outro lado, o panorama internacional mudou. O que antes era hacktivismo simbólico evoluiu para ataques com motivação política e consequências económicas reais. Alguns atores combinam ransomware com objetivos ideológicos, esbatendo a linha entre crime organizado e conflitos entre Estados.

Este contexto tecnológico e geopolítico obriga a repensar a cibersegurança industrial não como um tema meramente operacional, mas como uma questão estratégica de primeira ordem.

Cibersegurança industrial: onde estamos agora

Apesar da perceção de que os atacantes estão sempre um passo à frente, a maioria das tentativas é neutralizada antes de causar danos graves. Em 2024 aumentaram os incidentes graves que exigiam intervenção humana, mas também melhoraram os níveis de deteção precoce e contenção. Isto reflete um progresso real na maturidade do setor.

Grande parte desta evolução deve-se às aprendizagens pós-pandemia: mais investimento, melhor visibilidade dos ativos OT/ICS e um esforço crescente para alinhar-se com referenciais como IEC 62443, NIS2, CRA ou NERC CIP. A cibersegurança industrial deixou de ser um tema isolado das equipas técnicas para passar a influenciar decisões de negócio, operações e compliance.

Defesa em profundidade: resistir, conter, responder

No contexto atual, proteger uma infraestrutura crítica requer mais do que uma única barreira. As organizações mais avançadas estão a adotar um modelo de defesa em profundidade, que distribui a segurança em várias camadas e pontos-chave do ambiente industrial.

Este modelo começa pelos controlos físicos — acesso a salas técnicas, terminais ou PLCs — e continua com a segmentação das redes OT e IT, ajudando a conter qualquer ameaça que consiga entrar. A proteção dos endpoints industriais também é essencial, sobretudo em dispositivos com conectividade limitada ou sem patches disponíveis.

A isto somam-se as soluções de deteção e resposta alargada (XDR), que proporcionam visibilidade cruzada sobre sistemas críticos e ajudam a identificar padrões anómalos antes de o ataque se consolidar. Mas este conjunto técnico precisa de uma última camada igualmente importante: pessoas formadas e conscientes do seu papel como parte ativa da defesa.

Este enfoque não responde apenas à lógica operacional: está também plenamente alinhado com normas como a IEC 62443, que definem requisitos claros em termos de segmentação, autenticação e monitorização contínua.

Tecnologia que antecipa, pessoas que decidem

Atualmente, as soluções mais eficazes não apenas reagem a um ataque: antecipam-no. Graças a tecnologias baseadas em inteligência artificial, é possível detetar sinais precoces de atividade suspeita, mesmo antes de o atacante consolidar a sua posição. Estudos recentes indicam que estes sistemas identificam até 92 % das ameaças conhecidas, face aos 67 % que as soluções convencionais conseguem detetar.

Mas a tecnologia, por si só, não chega. A análise humana continua a ser fundamental. Só profissionais com critério e conhecimento operacional podem interpretar a informação e decidir como agir perante uma ameaça complexa.

Essa combinação — automatização inteligente mais julgamento especializado — permite reduzir o tempo médio de resposta (TTR) de mais de 17 horas para menos de 3. Uma diferença que, em ambientes industriais, traduz-se em continuidade operacional, custos evitados e menor exposição reputacional.

Lições aprendidas e olhar para o futuro

Ao rever os incidentes mais críticos dos últimos anos, o padrão repete-se: a maioria começou com falhas elementares. Um patch por aplicar, uma regra de firewall mal configurada, uma política de acesso desatualizada.

A diferença é que agora muitas organizações já tomaram nota. Aumentou-se a visibilidade dos sistemas OT, reforçaram-se os acessos remotos com VPNs segmentadas e jump servers, e cada vez mais empresas incorporam simulações de tipo red team para validar a sua preparação contra ataques reais.

Tudo isto confirma que a cibersegurança industrial já não é uma questão meramente técnica, mas sim um elemento central na gestão do risco corporativo. Investir em defesa por camadas, inteligência ativa e numa capacidade de resposta bem orquestrada já não é apenas recomendável: é uma condição para operar com garantias num ambiente cada vez mais complexo.

Pedro Jorge Viana é Head of Presales Iberia da Kaspersky

Opinião