“A Europa perdeu na Internet e na cloud”

O responsável máximo pela cibersegurança belga declarou em jeito de alerta, ao Financial Times, que a Europa perdeu controlo sobre a infraestrutura digital, depende de empresas norte-americanas para armazenar dados e proteger redes e está a falhar no acesso a tecnologias críticas como a cloud e a inteligência artificial.
2 de Janeiro, 2026
Miguel De Bruycker, diretor do Centre for Cybersecurity Belgium.

O atraso europeu em infraestruturas digitais face aos Estados Unidos é tão profundo que o continente “perdeu a Internet”. O alerta foi deixado por Miguel De Bruycker, diretor do Centre for Cybersecurity Belgium, numa entrevista ao Financial Times, onde traça um retrato pouco otimista da soberania digital europeia.

Para Miguel De Bruycker, é atualmente impossível garantir que os dados fiquem totalmente armazenados na União Europeia, uma vez que a infraestrutura digital é dominada por empresas norte-americanas. Mesmo quando o objetivo é manter a informação integralmente dentro do espaço europeu, o responsável considera que se trata de uma meta irrealista nas condições atuais.

A dependência não se limita ao armazenamento de dados. As defesas cibernéticas europeias assentam, em grande medida, na cooperação com empresas privadas, maioritariamente dos Estados Unidos, porque quase toda a infraestrutura digital é de natureza comercial e privada. Para o diretor do centro belga, esta situação não constitui, por si só, um problema grave de segurança, mas tem consequências estratégicas mais amplas.

A Europa está a perder acesso e escala em tecnologias-chave, como a computação em cloud e a inteligência artificial, áreas que considera vitais tanto para a inovação como para a defesa contra ciberataques. Miguel De Bruycker defende que o continente precisa de desenvolver capacidades próprias, não apenas por razões de segurança, mas também para não ficar excluído das próximas vagas tecnológicas.

Nesse contexto, critica o enquadramento regulatório europeu. A legislação comunitária sobre inteligência artificial, como o AI Act, é vista como um fator que está a travar a inovação, num momento em que outros blocos avançam mais rapidamente. Em vez de se concentrar apenas na regulação, o responsável belga sugere um papel mais ativo dos Estados no apoio a iniciativas privadas capazes de ganhar escala.

A proposta passa por modelos de cooperação semelhantes aos que deram origem a projetos industriais europeus no passado, como a criação da Airbus. Para Miguel De Bruycker, a União Europeia deveria promover uma iniciativa equivalente no domínio digital e da cibersegurança, apoiando empresas que já operam infraestruturas críticas.

Existem fornecedores europeus relevantes, como a francesa OVHcloud ou a alemã Schwarz Digital, mas a escala continua longe da dos grandes operadores globais. Ainda assim, o debate europeu sobre soberania tecnológica, muitas vezes centrado na dependência de empresas como a Amazon, é considerado pouco focado. Na visão de Miguel De Bruycker, falta uma definição clara do que significa soberania digital e uma estratégia concreta para a alcançar.

A Bélgica, que acolhe instituições da União Europeia e da NATO, tem sido um alvo frequente de ataques híbridos desde a invasão em grande escala da Ukraine pela Russia em 2022. No último ano, o país enfrentou cinco vagas prolongadas de ataques DDoS, que sobrecarregaram temporariamente sites de empresas e organismos públicos.

Estes ataques, atribuídos sobretudo a grupos de hacktivistas russos, têm como objetivo principal a perturbação e não o roubo de informação, afetando até cerca de 20 organizações por dia. Embora nem sempre seja claro se existe patrocínio direto do Kremlin, os incidentes surgem frequentemente após declarações políticas consideradas hostis a Moscovo.

Apesar do aumento deste tipo de ações, Miguel De Bruycker minimiza o seu impacto estrutural. São ataques temporários, focados na interrupção do funcionamento normal de serviços online. Após o início da guerra na Ucrânia, recorda ainda que os grandes operadores norte-americanos de cloud tiveram um papel determinante na recuperação e salvaguarda de dados atacados por operações russas.

O responsável belga afirma manter confiança na cooperação contínua com empresas tecnológicas dos Estados Unidos no combate a atividades maliciosas, mesmo num contexto político mais incerto e com sinais de menor compromisso norte-americano com a segurança europeia.

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