A força da IA supera a incerteza e anima 2026

As duas principais casas de análise do setor tecnológico traçam para 2026 um mercado global de TI marcado por forças contraditórias. Enquanto a IDC avisa que um conflito prolongado no Médio Oriente poderá reduzir o crescimento da despesa para 5% ou 6%, a Gartner mantém uma projeção de expansão de 10,8%, sustentada pelo forte investimento em infraestrutura de inteligência artificial, software e centros de dados. Para os decisores de compras, o contraste entre os dois cenários revela menos uma contradição e mais uma mudança de eixo no risco tecnológico global.
9 de Abril, 2026

A leitura conjugada das previsões da IDC e da Gartner mostra um mercado internacional de tecnologias de informação em tensão entre dois vetores de sinal oposto. Por um lado, persistem riscos geopolíticos com capacidade para travar investimento, pressionar custos e atrasar cadeias de fornecimento. Por outro, a aceleração da inteligência artificial continua a funcionar como motor estrutural de crescimento, sobretudo nas camadas de infraestrutura, software e serviços.

A Gartner prevê que a despesa mundial em TI atinja 6,15 biliões de dólares em 2026, o que representa um crescimento de 10,8% face a 2025, superando os 10,3% registados no ano anterior. Este número posiciona o mercado numa trajetória de expansão robusta, mesmo num contexto internacional de elevada incerteza macroeconómica.

A principal explicação para este dinamismo está na infraestrutura orientada para IA. O investimento em servidores deverá acelerar 36,9% em termos homólogos, enquanto os sistemas de centro de dados deverão crescer 31,7%, ultrapassando os 650 mil milhões de dólares. O impulso continua a vir sobretudo dos grandes fornecedores de cloud, cuja procura por capacidade otimizada para cargas de trabalho de IA mantém um ciclo de investimento agressivo.

O dado mais relevante para gestores de compras empresariais é que a procura por capacidade computacional para IA continua a sobrepor-se, para já, ao risco conjuntural vindo da geopolítica. Isto ajuda a explicar porque a Gartner mantém uma visão mais otimista do que a IDC, cuja revisão recente foi diretamente condicionada pela possibilidade de uma guerra prolongada entre Estados Unidos, Israel e Irão.

Na prática, as duas análises não são incompatíveis. A Gartner está a observar a força dos segmentos mais estratégicos e menos discricionários do mercado, sobretudo aqueles ligados a hyperscalers, software empresarial e serviços críticos. A IDC, pelo contrário, chama a atenção para o efeito transversal do aumento do preço do petróleo, da energia e do transporte de componentes, fatores que tendem a afetar com maior rapidez os ciclos de renovação de hardware e os projetos empresariais mais dependentes de financiamento.

O segmento de software surge como a segunda maior alavanca de crescimento global. Apesar de uma ligeira revisão em baixa, a Gartner continua a antecipar uma expansão de 14,7%, elevando este mercado para mais de 1,4 mil milhões de dólares.

O software continua a demonstrar maior resiliência porque responde a prioridades de eficiência, automação e produtividade, áreas que os conselhos de administração tendem a proteger mesmo em ciclos económicos mais frágeis. A despesa com modelos de IA generativa deverá crescer 80,8%, reforçando o peso deste segmento no total do mercado.

Já o mercado de dispositivos apresenta um perfil diferente e mais alinhado com os alertas da IDC. Embora o investimento total deva subir para 836 mil milhões de dólares, o ritmo abranda para 6,1%, penalizado pela subida do preço da memória e por restrições de oferta nos equipamentos de entrada de gama.

Este ponto merece atenção especial em Portugal, onde muitos ciclos de compra empresarial continuam fortemente dependentes dos PC, portáteis profissionais, mobilidade corporativa e renovação de endpoints. A combinação entre custos unitários mais elevados e pressão orçamental poderá levar muitos CIO e diretores de compras a prolongar o ciclo de vida dos equipamentos.

Para o mercado empresarial português, a principal conclusão não está em escolher qual das previsões está “mais certa”, mas em perceber que ambas refletem diferentes velocidades dentro do mesmo mercado.

Os investimentos ligados a IA, centros de dados, software crítico e serviços geridos deverão continuar a crescer acima da média. Já as áreas mais expostas a custo energético, inflação importada e logística internacional poderão enfrentar maior escrutínio interno.

O que está a mudar em 2026 não é apenas o volume da despesa, mas a qualidade da decisão de compra. Em ambientes de maior incerteza, os responsáveis de TI e procurement tenderão a privilegiar projetos com retorno mais rápido, redução comprovada de custo operacional e impacto direto na produtividade.

É precisamente neste ponto que a análise da IDC funciona como contraponto útil à narrativa mais otimista da Gartner. A força estrutural da IA pode sustentar o mercado global, mas um choque geopolítico prolongado continua a ter capacidade para redesenhar prioridades trimestrais, congelar atualizações de parque e transferir orçamento de inovação para continuidade operacional.

Para os decisores portugueses, 2026 perfila-se assim como um ano em que a disciplina financeira e a seletividade estratégica poderão pesar tanto como a ambição tecnológica.

Opinião