A grande ilusão da personalização na era da IA

14 de Julho, 2026

A Inteligência Artificial Generativa trouxe à aprendizagem corporativa uma promessa difícil de ignorar, a de tornar a personalização da aprendizagem mais acessível, mais escalável e, aparentemente, mais simples de concretizar. Hoje, é possível gerar conteúdos em segundos, adaptar formatos, recomendar percursos, criar simulações e disponibilizar apoio contínuo através de assistentes inteligentes. O potencial destas ferramentas é real e está a transformar a forma como concebemos e disponibilizamos experiências de aprendizagem.

Não surpreende, por isso, que muitas organizações estejam a acelerar a adoção da IA em L&D. Pela primeira vez, a personalização parece estar ao alcance de qualquer equipa de formação, independentemente da sua dimensão ou recursos.

Mas é precisamente aqui que surge uma questão fundamental e que importa considerar no imediato. Estaremos verdadeiramente a personalizar a aprendizagem ou apenas a tornar mais eficiente a distribuição de conteúdos?

Um dos maiores equívocos da atual discussão sobre IA aplicada à aprendizagem é confundir personalização com customização. Alterar exemplos, adaptar a linguagem, mudar o formato ou recomendar conteúdos diferentes pode melhorar a experiência do utilizador. Mas isso não significa, necessariamente, que a aprendizagem esteja alinhada com os seus desafios reais.

É um facto que a customização consegue responder ao desafio de apresentar determinado conteúdo junto de um público-alvo concreto. Mas a personalização é muito mais exigente, ao explicar o que leva determinada pessoa a aprender um conteúdo, num momento específico, num contexto específico.

É aqui que surge um dos maiores desafios. A IA consegue adaptar conteúdos, ritmos e percursos. Mas a verdadeira personalização não começa no conteúdo. Começa na compreensão do problema que a aprendizagem pretende resolver. Para personalizar de forma relevante, é necessário compreender quem aprende, que competências precisa de desenvolver, em que contexto aplica o conhecimento, que obstáculos enfrenta no trabalho, que comportamentos devem mudar e que resultados organizacionais se pretende alcançar.

Sem esta base, a IA corre o risco de produzir versões diferentes do mesmo problema. Até pode fornecer mais conteúdos e de forma mais célere. Mas nem sempre apresenta os mais relevantes.

O problema, portanto, não está na tecnologia. Está na tentativa de automatizar modelos de aprendizagem que já eram pouco eficazes antes da IA existir. Se a estratégia continua centrada na produção massiva de conteúdos, em formações desligadas da realidade profissional e em métricas de conclusão ou participação, a IA não resolve a fragilidade do modelo. Apenas acelera a sua execução.

É precisamente por isso que a discussão sobre IA não é, em primeiro lugar, uma discussão tecnológica. É, antes, uma discussão sobre estratégia de aprendizagem.

A maturidade digital em L&D não se mede pela quantidade de ferramentas implementadas, nem pela frequência com que se utiliza IA. Mede-se pela capacidade de decidir onde a tecnologia cria valor, bem como pela clareza com que a organização responde a premissas cruciais, que vão das competências críticas para o futuro à medição do impacto da aprendizagem, sem esquecer o papel da intervenção humana em todo o processo. O que deixa em cima da mesa a discussão em torno da nossa indispensabilidade

As organizações mais maduras começam pela estratégia e só depois escolhem a tecnologia.

Quando a personalização é entendida desta forma, também o papel dos profissionais de L&D se altera. O debate sobre a substituição dos profissionais de aprendizagem pela IA é frequentemente enviesado. A questão não é se a IA vai substituir formadores, Instructional designers ou gestores de formação. A questão é perceber que tipo de profissionais serão mais relevantes, numa era em que a tecnologia consegue executar tarefas operacionais com enorme rapidez.

A IA pode gerar conteúdos, apoiar diagnósticos, simular, analisar dados e acelerar processos. Mas continua a depender da capacidade humana para interpretar contextos, desafiar pressupostos, promover pensamento crítico, criar significado e facilitar mudanças comportamentais duradouras.

O futuro da aprendizagem não será definido pelas organizações que utilizam mais IA. Será definido pelas que conseguirem combinar tecnologia, desenho pedagógico, conhecimento do negócio e compreensão das pessoas. Para muitos, a ilusão é acreditar que a personalização começa na tecnologia. Na realidade, começa bem antes, desde logo, na compreensão do contexto, dos desafios e dos comportamentos que queremos transformar.

Joana Teixeira é Head of Digital Learning da Cegoc 

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