Portugal fez, nas últimas duas décadas e meia, um percurso relevante na digitalização da economia, da sociedade e da Administração Pública. Jaime Quesado, economista, gestor e presidente da Associação Portuguesa de Management, reconhece esse caminho, mas deixa uma leitura, o país avançou muito na infraestrutura digital, mas continua a ter um problema sério de qualificação e literacia tecnológica.
A conversa parte de uma memória pessoal e institucional. Quesado recorda o trabalho iniciado no final dos anos 90 e no início do século XXI, num período marcado pela aposta na transformação digital, pela mobilização de fundos comunitários e pela intervenção de figuras como Mariano Gago, Diogo Vasconcelos e outros protagonistas da modernização tecnológica do país.
O balanço é positivo, mas não complacente. O digital entrou na vida das empresas, dos cidadãos e do Estado. A relação entre a Administração Pública, os contribuintes e as empresas melhorou em várias áreas, nomeadamente nas finanças e na segurança social. Ainda assim, para Quesado, há uma diferença importante entre digitalizar serviços e transformar verdadeiramente o funcionamento interno das instituições.
O Estado continua demasiado organizado em silos, com redundâncias, pouca articulação interna e uma cultura administrativa que nem sempre acompanha a ambição tecnológica. A concentração de ministérios num único espaço é vista como um passo no sentido certo, mas insuficiente para resolver um problema que é também cultural, organizacional e territorial.
A questão central passa pela capacidade de incluir todo o país nesta transição. Quesado alerta para o risco de deixar para trás as populações com menor acesso ou menor domínio das ferramentas digitais. A preocupação é particularmente evidente quando fala de territórios como Trás-os-Montes, o Alentejo ou outras zonas do interior, onde a presença física de serviços públicos, instituições bancárias ou operadores essenciais tem vindo a diminuir.
A digitalização, defende, não pode transformar-se numa barreira adicional. Se o cidadão não tem competências digitais para resolver um problema com a Autoridade Tributária ou com a Segurança Social, o Estado deve continuar a garantir mecanismos presenciais de resposta. A tecnologia deve simplificar, não afastar.
Outro eixo forte da conversa é a inteligência coletiva. Para Jaime Quesado, Portugal tem talento, conhecimento e uma diáspora qualificada que poderia ser mais bem aproveitada na afirmação externa do país e na captação de investimento. Muitos portugueses em cargos de responsabilidade em multinacionais, universidades e centros de competência continuam ligados a Portugal, mas nem sempre encontram canais eficazes para colocar esse conhecimento ao serviço da economia nacional.
A diáspora portuguesa é apresentada como um ativo estratégico ainda subutilizado, sobretudo na projeção internacional do país e na identificação de oportunidades de investimento. O problema não está na falta de disponibilidade dessas pessoas, mas na ausência de uma organização mais eficaz para as integrar numa estratégia nacional.
É neste ponto que entra a visão da Associação Portuguesa de Management. Quesado explica que a APM pretende assumir-se como uma entidade pequena, mas com capacidade de orquestração. Não quer substituir associações empresariais, universidades ou entidades setoriais. Quer antes ligar redes que já existem e dar-lhes maior coerência.
A estratégia passa por três eixos: competitividade, conhecimento e mercados. O roteiro de competitividade deverá aproximar clusters, startups, empresas e escolas de gestão. O roteiro de conhecimento envolverá instituições como a Porto Business School, Nova, Católica, ISEG, ISCTE e outras escolas, com sessões dedicadas a temas como marketing, operações e inteligência artificial. O roteiro de mercados deverá integrar a diáspora, câmaras de comércio e redes económicas ligadas à internacionalização.
Portugal precisa de organizar melhor as suas cadeias de valor e mostrar de forma mais consistente as boas práticas que já existem no tecido empresarial.
A inteligência artificial surge na conversa como oportunidade, mas também como risco. Quesado recusa uma visão determinista da tecnologia. A IA pode aumentar a produtividade, apoiar a competitividade e criar novas formas de participação cívica, mas também pode aprofundar desigualdades, fragmentar a sociedade e substituir funções sem que exista uma resposta adequada para as pessoas afetadas.
O exemplo das caixas automáticas no retalho serve para mostrar uma tendência mais ampla: algumas tarefas irão desaparecer ou reduzir-se, e a sociedade terá de preparar respostas para quem fica exposto a essa transição. Mas a discussão não se limita ao emprego. A IA também levanta riscos democráticos, desde a manipulação de informação aos deepfakes, passando pela propaganda e pela capacidade das plataformas digitais influenciarem sociedades abertas.
Para Quesado, a resposta passa por capacitação. A IA deve ser tratada como um instrumento, não como um destino inevitável. Tal como aconteceu com a internet, será necessário criar programas alargados de literacia e sensibilização, capazes de ajudar cidadãos, empresas e instituições a utilizar estas ferramentas com sentido crítico.
A metáfora mais forte da conversa resume bem o problema: estamos a construir Ferraris tecnológicos para pessoas que, muitas vezes, ainda não têm carta de condução digital. A oferta tecnológica pode ser sofisticada, mas sem uma procura qualificada, formada e confiante, a transformação fica incompleta.
A IA também é vista como um instrumento de competitividade industrial. Quesado refere o exemplo da automação e da robótica em setores como o têxtil, a cortiça, a metalomecânica, a saúde e o agroalimentar. Muitas empresas portuguesas já incorporam tecnologia avançada e são competitivas em mercados internacionais, mesmo que nem sempre tenham grande visibilidade pública.
A questão, para o economista, é saber se esta utilização tecnológica será acompanhada por formação, organização interna e redes colaborativas. Empresas, fornecedores, clientes, parceiros e trabalhadores terão de fazer parte do mesmo processo. A transformação não pode ficar confinada aos departamentos de tecnologia.
A conversa entra também no debate europeu sobre regulação digital. Quesado reconhece que a Europa tem uma cultura regulatória mais forte do que a China ou os Estados Unidos, mas alerta para o risco de Bruxelas se fechar numa lógica demasiado distante da realidade económica e empresarial.
O tema é sensível. A ausência de regulação pode acelerar a inovação, mas também pode abrir espaço a abusos, concentração de poder e riscos para direitos fundamentais. Por outro lado, uma regulação excessiva pode travar a competitividade e dificultar a resposta europeia num mundo onde outras potências avançam com maior velocidade.
A posição expressa no podcast não é uma defesa da ausência de regras. É antes um apelo ao equilíbrio. A Europa precisa de proteger os seus valores, mas não pode ignorar que a competição tecnológica global está a ser jogada a uma velocidade muito superior à dos processos administrativos tradicionais.
Para Portugal, o desafio é duplo. Por um lado, acompanhar a agenda europeia e proteger direitos. Por outro, garantir que a transformação digital tem impacto real na vida das pessoas, na eficiência do Estado e na capacidade competitiva das empresas.
No encerramento, Quesado deixa uma recomendação dirigida ao setor privado: foco. As empresas devem concentrar-se no que é essencial, mobilizar equipas, investir em formação e construir redes colaborativas com fornecedores, clientes e parceiros. A tecnologia só cria valor quando entra na cultura de gestão e na organização concreta das empresas.
A mensagem final do episódio é de exigência, mas também de possibilidade. Portugal tem infraestruturas, talento, empresas competitivas, universidades, diáspora e experiência acumulada. Falta transformar esses ativos numa estratégia mais articulada, inclusiva e orientada para resultados.
O futuro digital português não dependerá apenas da tecnologia disponível, mas da capacidade coletiva de a compreender, governar e colocar ao serviço das pessoas, das empresas e do território.
Jaime Quesado, deixou-nos para ouvir: Porcelain do nova-iorquino Moby

