Historicamente, as ferramentas de aprendizagem automática acumularam anos de eficácia comprovada em áreas complexas, como a deteção de fraude fiscal. No entanto, o investimento do setor público em tecnologias de inteligência artificial fiáveis e na sua respetiva regulamentação arrasta um atraso estrutural que agora ameaça a segurança dos serviços oferecidos aos cidadãos.
O relatório elaborado pela SAS em parceria com a consultora IDC, sob o título Data and AI Impact Report: The Trust Imperative, expõe o desalinhamento entre a pressa tecnológica e a maturidade das infraestruturas. Atualmente, cerca de 52% das administrações públicas já utilizam agentes de inteligência artificial, sistemas autónomos focados em fluxos de trabalho complexos. Em Portugal, esta taxa de adoção acompanha a tendência global, superando inclusivamente setores historicamente mais digitalizados no mercado nacional, como a banca ou o retalho. Todavia, apenas 6% dos organismos públicos contam com sistemas de inteligência artificial plenamente fiáveis, o que representa o índice de confiança mais baixo entre todos os setores económicos analisados.
Esta vulnerabilidade é acentuada por um dilema de confiança por parte dos decisores. Existe uma tendência para privilegiar tecnologias recentes com interfaces humanizadas, como a inteligência artificial generativa, em detrimento de modelos analíticos tradicionais que são mais fáceis de auditar. Como consequência direta desta escolha, cerca de 38% dos organismos governamentais utilizam inteligência artificial sem incorporar ferramentas de segurança.
Em termos globais, somente 15,3% das entidades públicas operam no nível mais elevado do índice de fiabilidade de dados, posicionando-se atrás de áreas como as ciências da saúde, seguros e banca. No contexto ibérico, o próprio setor financeiro reflete esta dificuldade de consolidação, dado que apenas 11% das instituições bancárias conseguiram alcançar o equilíbrio ideal entre uma forte implementação tecnológica e salvaguardas éticas estruturadas.
A transição da fase de experimentação para a fase operacional exige a resolução imediata de lacunas técnicas. A ausência de bases de dados centralizadas e a gestão deficiente da informação surgem como os principais entraves em todas as geografias analisadas. O vice-presidente de investigação da IDC, Chris Marshall, alerta que a passagem acelerada para o uso operacional não pode assumir a confiança como garantida, especialmente quando as decisões destes sistemas afetam diretamente a vida dos cidadãos. O especialista reforça que, sem regras transparentes e bases de dados sólidas, o otimismo tecnológico pode ultrapassar a fiabilidade real dos sistemas, multiplicando os riscos para a sociedade e para as próprias instituições.
Para reverter este cenário de fragilidade e colmatar a falta de competências internas, o setor público prevê reforçar as dotações orçamentais. No próximo ano, quase metade dos organismos públicos estima aumentar o investimento nesta tecnologia entre 4% e 20% com o intuito de otimizar processos e produtividade, ao passo que 12,6% das entidades planeia subidas orçamentais superiores a 20%. O diretor de investigação da IDC para a região Ásia-Pacífico, Ravi Kant Sharma, reitera que a capacidade de equilibrar o investimento em infraestrutura física com soluções fidedignas será o fator decisivo para sustentar esta evolução tecnológica.
Para o ecossistema empresarial e governamental em Portugal, as conclusões deste relatório funcionam como um sério aviso estratégico. Embora o país se destaque pela rápida e ambiciosa integração de novas ferramentas, a infraestrutura de dados subjacente permanece fragmentada e carece de mecanismos éticos e de explicabilidade. Com a aproximação de novas exigências regulatórias, as organizações nacionais enfrentam o desafio urgente de robustecer a segurança e a qualidade dos dados para cumprir regulamentações futuras como o Regulamento da UE sobre Inteligência Artificial.







