Pedro Vale representa uma geração de líderes tecnológicos portugueses que vêem na IA não apenas uma tendência, mas uma transformação estrutural da forma como as empresas operam. Para o nosso convidado, talento, responsabilidade, ética e acessibilidade têm de caminhar lado a lado.
A Cegid tem vindo a afirmar-se no setor tecnológico português com uma estratégia ambiciosa de aquisições e investimento em inovação. A criação de um Centro de Excelência em Inteligência Artificial (IA), sediado em Portugal, é uma das suas apostas mais relevantes. Pedro Vale, responsável máximo por esta operação e Vice-Presidente Sénior de Engenharia para IA, Dados e Capacidades Comuns da Cegid, explica-nos o que está a ser feito, quais os objetivos e os principais desafios na adoção da IA em mercados como Portugal, França e Espanha.
Porque escolheu a Cegid Portugal para o seu centro de excelência em IA?
Portugal tem um conjunto de vantagens claras. Em primeiro lugar, o talento: as universidades portuguesas formam excelentes profissionais em engenharia, ciência de dados e machine learning. Depois, o ecossistema tecnológico tem vindo a consolidar-se com grandes empresas, startups e centros de desenvolvimento. Há aqui uma massa crítica que favorece a inovação.
Além disso, temos um posicionamento geográfico privilegiado entre a Europa e a América, uma cultura de trabalho alinhada com o modelo europeu, e uma enorme capacidade de adaptação – o que facilita a colaboração com equipas de diferentes países e perfis.
Qual é o papel deste centro dentro da operação global da Cegid?
É um polo de inovação e desenvolvimento transversal a todas as linhas de produto da Cegid. O nosso objetivo é identificar tecnologias de IA – vindas da indústria ou da academia – e trazê-las para os nossos produtos, criando mais valor para os utilizadores. Construímos tecnologia que é depois integrada nos produtos da empresa. O foco está tanto na eficiência operacional como na inovação funcional e na criação de novos modelos de negócio.
Há aplicações concretas da IA nas soluções da Cegid?
Sim, em várias áreas. Em contabilidade e fiscalidade, já automatizamos reconciliações, preenchimento de declarações e verificação de conformidade. No ERP, a IA é usada para prever necessidades de stock, fazer forecasting financeiro e otimizar processos. Nas finanças, já conseguimos fazer análises complexas em tempo real com base em padrões que escapariam a um humano.
Nos recursos humanos, temos aplicações na triagem de candidaturas e na formação. Um dos projetos mais interessantes é um assistente virtual que ajuda cada colaborador a traçar um plano de formação personalizado, com base nos seus objetivos de carreira.
Já há clientes a usar estas soluções em Portugal?
Sim. No Primavera Evolution e no PHC Go, já temos assistentes virtuais integrados, que analisam performance financeira, gestão de stocks, logística e vendas em tempo real. Os primeiros resultados são muito positivos. Tal como no desenvolvimento de software, há utilizadores que rapidamente percebem como a IA os pode ajudar – tornam-se mais rápidos, mais eficientes. Outros necessitam de um processo mais lento de adoção. Por isso, temos um trabalho contínuo de evangelização e literacia digital.
E quanto à questão crítica dos dados? Como garantem a sua qualidade e governança?
Os nossos dados são sólidos, oriundos de aplicações financeiras e de gestão. Trabalhamos com dados curados, o que ajuda imenso a evitar erros. Os modelos de IA funcionam sempre dentro do contexto do cliente e nunca saem desse âmbito. Além disso, temos um data privacy officer envolvido em todo o ciclo de desenvolvimento, assegurando o cumprimento rigoroso do RGPD e das melhores práticas de segurança e privacidade.
Como lidam com o equilíbrio entre automação e supervisão humana?
A IA deve aumentar as capacidades humanas, nunca substituí-las. O humano continua no centro das decisões, especialmente nas críticas. A automação permite escalar e ser mais eficiente, mas o selo final tem de ser dado por uma pessoa. Acreditamos num modelo de supervisão ativa, com a confiança a crescer à medida que os utilizadores ganham experiência com estas ferramentas.
A democratização da IA é real? As PME não ficam para trás nesta corrida?
Temos de garantir que todas as empresas, independentemente da sua dimensão, possam tirar partido da IA. É por isso que apostamos fortemente em soluções SaaS e cloud, que eliminam barreiras de entrada como infraestruturas caras. Desenvolvemos tecnologia escalável, adaptada tanto a microempresas como a grandes grupos.
Notam diferenças de maturidade digital entre os mercados de Portugal, França e Espanha?
Sim. As grandes empresas estão mais ou menos alinhadas, mas nas PME nota-se ainda alguma falta de maturidade digital, sobretudo em Portugal. É preciso continuar a evangelizar. Em França, há maior resistência à adoção, muito por causa das restrições legais e culturais à exposição de dados. Em Portugal, pelo contrário, vejo mais abertura, mais otimismo e vontade de experimentar.
A Cegid continua a contratar para o Centro de Excelência?
Sim. Devemos terminar 2025 com cerca de 120 pessoas e queremos chegar a pelo menos 150 em 2026. Os perfis mais procurados são data engineers, data scientists, machine learning engineers, mas também software developers, QA engineers e product owners. Valorizo especialmente duas soft skills: a capacidade de trabalhar em equipa e a curiosidade intelectual. Se alguém em IA não teve sequer curiosidade de explorar o que é o ChatGPT, é um red flag.
A Cegid vai estar presente no Portugal Digital Summit. O que vos leva a apoiar este tipo de eventos?
Acreditamos que Portugal pode e deve ser um exportador de tecnologia. Estar presente em eventos como o Portugal Digital Summit é uma forma de nos posicionarmos nesse sentido. Serve para networking, claro, mas também para mostrar que estamos a construir, em conjunto com outras empresas, um país mais forte em inovação tecnológica.







