O fascínio pela Inteligência Artificial (IA) tem levado empresas em todo o mundo a investir somas avultadas na promessa de uma transformação radical. Em agosto de 2025, 78% das organizações já utilizavam IA em pelo menos uma área de negócio, contra 55% no ano anterior. O mercado global da tecnologia está avaliado em 233 mil milhões de dólares, com mais de 60% dos investimentos a dirigirem-se ao “machine learning”. O entusiasmo é evidente, mas os sinais de alerta também.
O principal desafio é o da escala. Apesar da rápida adesão, apenas 28% das aplicações empresariais estão efetivamente ligadas ao ecossistema de IA, criando silos de dados que limitam o seu potencial. O resultado é que 74% das empresas têm dificuldade em transformar projetos-piloto em casos de uso produtivos, o que evidencia o fosso entre ambição e capacidade de execução.
O custo da aposta na IA está a revelar-se pesado. Estima-se que 85% das iniciativas não entregam o valor prometido, quase o dobro da taxa de insucesso de projetos tradicionais de TI. O caso da IBM, que perdeu 4 mil milhões de dólares com o Watson for Oncology, ou da McDonald’s, que em 2024 encerrou o sistema de drive-thru automatizado por falhas persistentes, são exemplos de uma tendência mais ampla.
A escala dos investimentos ajuda a perceber a dimensão do problema. Um projeto simples de automação com IA pode custar 10 mil dólares, mas as soluções empresariais podem ultrapassar os 10 milhões. Em 2025, 42% das empresas já tinham terminado a maioria dos seus projetos de IA. E até os líderes de mercado enfrentam o dilema: a OpenAI, avaliada em 300 mil milhões de dólares, é projetada perder 5 mil milhões em 2024, apesar dos 3,7 mil milhões de receitas obtidas com subscrições do ChatGPT.
O paralelo com o final dos anos 1990 é inevitável. Nos Estados Unidos, 64% do capital de risco investido em 2025 foi destinado a empresas de IA, mesmo quando estas registavam prejuízos sucessivos. O fenómeno lembra o período da bolha tecnológica, quando empresas sem modelo de negócio sólido eram avaliadas com base em promessas de futuro.
Atualmente existem mais de 370 unicórnios de IA, avaliados em conjunto em mais de 1 bilião de dólares. O setor já representa 32% do valor de mercado do S&P 500, refletindo uma concentração de risco que preocupa analistas. Tal como em 2000, as avaliações parecem muitas vezes desligadas dos fundamentos empresariais.
Perspetivas até 2030
A possibilidade de uma correção não elimina, no entanto, o potencial transformador da IA. O mercado global deverá atingir 1,81 biliões de dólares em 2030, com impacto estimado de 15,7 biliões no PIB mundial. Na saúde, a previsão aponta para um mercado de 200 mil milhões de dólares, com diagnósticos mais precoces e tratamentos personalizados. No setor financeiro, a aposta em deteção de fraude e avaliação de risco pode valer 150 mil milhões.
Setores como a indústria transformadora e o automóvel também se preparam para uma utilização intensiva, incluindo manutenção preditiva e condução autónoma. Até 2030, 86% das empresas esperam ter passado por uma transformação significativa com IA e 70% deverão utilizar a tecnologia em pelo menos uma área de negócio.
Não está em causa se a IA terá impacto, mas como as empresas conseguirão transformar investimento em valor real. A história da bolha “dotcom” mostra que de uma crise podem nascer gigantes como Amazon e Google, mas também que milhares de empresas desapareceram por terem confundido promessas tecnológicas com modelos de negócio viáveis.
A lição que se aplica à IA é clara: evitar a corrida cega à tecnologia e apostar antes em projetos que resolvam problemas concretos, com métricas claras de sucesso. Só assim será possível evitar que a atual euforia se transforme numa nova bolha, com custos elevados para empresas e investidores.
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