Durante décadas, a propaganda exigia meios, tempo e instituições. Hoje, basta um computador, um modelo de inteligência artificial e uma boa leitura do que mobiliza emoções online. O caso de Jessica Foster, uma influenciadora “patriótica” pró Trump que nunca existiu, não é apenas uma curiosidade digital, mas um sintoma de uma mudança profunda na forma como a realidade é construída, consumida e manipulada.
Jessica Foster acumulou centenas de milhares, possivelmente, mais de um milhão de seguidores ao apresentar-se como uma jovem militar americana, atraente, dedicada à pátria e alinhada com o movimento MAGA (Make America Great Again). Publicava imagens ao lado de líderes mundiais, em cenários de guerra e em poses cuidadosamente calculadas. O detalhe crucial? Nada disso era real e ainda assim, funcionou. O sucesso desta personagem não revela ingenuidade do público, mas acima de tudo, a eficácia de uma narrativa bem construída. Foster não era apenas “bonita” ou “convincente”, era antes um arquétipo da fantasia perfeita de um certo imaginário político: jovem, patriótica, militarizada e sexualizada.
A inteligência artificial não inventou a propaganda, tornou-a antes, economicamente acessível, escalável e emocionalmente eficaz. Ao contrário dos bots tradicionais ou das fake news textuais, estas novas figuras têm rosto, corpo e “vida”, interagem, respondem e criam a ilusão de intimidade que desarma o espírito crítico. Apesar de múltiplos sinais de inconsistência (uniformes incorretos, contextos impossíveis, ausência total de registos oficiais de serviço militar) a maioria dos seguidores nunca questionou a autenticidade da personagem, demonstrando assim como símbolos de autoridade e pertença continuam a funcionar como atalhos de confiança num ambiente digital saturado de conteúdo.
O caso torna-se ainda mais perturbador quando se percebe que o objetivo não era somente político, mas também, económico. A conta servia como um funil para plataformas pagas, onde seguidores eram levados a consumir conteúdo mais explícito. Ou seja, a ideologia funcionava como isco que mantém o público, e a monetização justificava a operação.
Este modelo híbrido de propaganda e monetização é particularmente perigoso pois não estamos apenas perante manipulação política, mas sim, perante um ecossistema onde emoções políticas são exploradas como produto. Primeiro, constrói‑se afinidade ideológica que posteriormente cria comunidade. Quem segue não está apenas a consumir conteúdo, está a reconhecer‑se. Só então surge a monetização quando a confiança e o vínculo emocional estão estabelecidos, e o desvio para plataformas pagas torna‑se quase natural. Não é vendido como fraude, mas como um acesso exclusivo, apoio, proximidade. O ponto crucial é que nenhuma das duas partes funciona tão bem sozinha, e talvez o maior problema não seja o facto de algumas pessoas terem sido enganadas. É o facto de cada vez mais, não sabermos distinguir o que é real e o que é falso no panorama digital.
Se uma personagem artificial consegue criar milhões de interações, influenciar opiniões, criar relações parassociais e tudo isso, associamos um contexto de guerra, eleições ou crises sociais, o fenómeno é particularmente problemático.
Jessica Foster não é um caso isolado; é sim, um protótipo e um alerta de que o desafio não é apenas tecnológico, é também cultural e político. Exige literacia mediática, regulação eficaz e, acima de tudo, uma nova consciência: a de que aquilo que vemos online pode ser não só falso, mas também ter sido desenhado precisamente para nos convencer de que é verdadeiro.
Bruno Castro é Fundador & CEO da VisionWare. Especialista em Cibersegurança e Análise Forense.







