Durante anos, acreditámos, talvez por conforto psicológico, que o pior da internet acontecia longe de nós, nas profundezas da dark web, acessível apenas a quem dominava ferramentas anónimas e tinha intenções particularmente sombrias. No entanto, a verdade é que, nos dias de hoje, essa crença é cada vez mais ingénua e os sinais são claros: a exploração sexual infantil online deixou de estar escondida. Está na superfície, nas redes sociais, nos jogos online, nos motores de busca comuns e, cada vez mais, é empurrada pelos próprios algoritmos.
Um estudo recente da organização finlandesa, Protect Children, revela que 61% dos inquiridos admitem que, normalmente, utilizam plataformas da Internet aberta para encontrar ou partilhar conteúdos de abuso ou pornografia infantil, dispensando completamente a dark web. Muitos relatam que “os vídeos simplesmente aparecem”, graças às recomendações algorítmicas após um primeiro clique.
Uma realidade tão perturbadora como esta, que antes parecia exigir algum domínio técnico, agora surge num feed qualquer, lado a lado com fotos de amigos ou vídeos de humor. E isso não é por acaso, é resultado da combinação explosiva entre plataformas pouco reguladas e a capacidade da IA em identificar padrões de consumo e amplificá-los sem distinguir legalidade ou ética.
A chegada da IA generativa acrescentou uma camada ainda mais distópica a este problema. Um predador já não precisa apenas de procurar vítimas ou conteúdo real: pode fabricar imagens e vídeos sintéticos, manipulando fotografias de crianças obtidas nas redes sociais e transformá-las em material explícito.
Ao mesmo tempo, a facilidade com que predadores encontram crianças online cresce proporcionalmente ao tempo que estas passam conectadas, e à falta de supervisão digital adequada. É neste ecossistema que o grooming prospera: adultos mantêm conversas, constroem confiança e manipulam menores em chats de jogos, redes sociais e plataformas de streaming. Estas técnicas já eram conhecidas, contudo, a velocidade e escala com que ocorrem hoje são inéditas e cada vez mais alarmantes.
Um relatório recente da ONU estima que cerca de 300 milhões de crianças tenham sido vítimas de exploração ou abuso sexual online apenas no último ano, um número que reflete não só o crescimento da atividade criminosa como também os efeitos combinados da pobreza, de crises humanitárias e do aumento da conetividade entre jovens e predadores. Casos como o desmantelamento conduzido pela Europol da plataforma KidFlix, que acumulava conteúdo explicito e contava com cerca de 1,8 milhões de utilizadores distribuídos por 35 países, mostram que existe uma enorme estrutura organizada de produção e distribuição de conteúdo, muitas vezes financiada por criptomoedas e amparada por redes tecnológicas sofisticadas. É uma indústria global, e não um conjunto isolado de indivíduos, e isso torna o desafio ainda maior.
Num contexto onde a tecnologia facilita tanto o crime como a sua disseminação, é inevitável perguntar, se os algoritmos conseguem identificar rostos, objetos e padrões visuais com precisão quase absoluta, porque não identificam e bloqueiam imediatamente conteúdo de abuso infantil? A resposta parece residir no desencontro entre as prioridades sociais e as prioridades económicas das empresas tecnológicas. A moderação de conteúdo é cara, complexa e arriscada, já a recomendação algorítmica que mantém os utilizadores envolvidos é lucrativa.
Se queremos enfrentar este problema com seriedade, é urgente responsabilizar as plataformas, reforçar a cooperação internacional, educar famílias e escolas e, sobretudo, redefinir as prioridades do ecossistema tecnológico global. A IA deve ser utilizada para proteger, não para amplificar riscos. Torna-se evidente que o perigo deixou de viver nas margens da internet e está à vista de todos nós.
Bruno Castro é Fundador & CEO da VisionWare. Especialista em Cibersegurança e Análise Forense.







