A resiliência inesperada da tecnologia europeia

Apesar da contração económica na zona euro motivada pela crise energética e pelo conflito no Irão, as ações de empresas tecnológicas europeias ligadas à inteligência artificial estão a registar um crescimento assinalável. Com valorizações mais atrativas face aos mercados norte-americanos, o setor das infraestruturas e dos semicondutores impulsiona os índices europeus para máximos históricos, contrariando a turbulência geopolítica e o pessimismo generalizado.
22 de Maio, 2026

O cenário económico na zona euro sofreu uma contração acentuada no mês de maio, a mais severa em mais de dois anos e meio. Este declínio produtivo deve-se substancialmente ao choque energético resultante do conflito no Irão, que teve início no final do passado mês de fevereiro. O mercado acionista europeu mais amplo, representado pelo índice STOXX 600, reflete esta turbulência macroeconómica com uma queda superior a dois por cento desde o início das hostilidades, frustrando as perspetivas de que as ações da região pudessem superar o desempenho dos seus equivalentes norte-americanos.

No entanto, um segmento específico do mercado tem passado despercebido ao contrariar de forma robusta esta conjuntura. Apesar da contração económica europeia, o setor tecnológico regional atingiu os valores mais altos desde o ano dois mil, impulsionado pelos investimentos em inteligência artificial. Desde o mês de abril, as ações tecnológicas europeias avançaram cerca de dez por cento. Segundo os dados da empresa de análise macroeconómica TS Lombard, mais de dois terços de todo o desempenho positivo registado pelas ações europeias no último mês e meio concentra-se em empresas ligadas a esta transição tecnológica.

A referida análise segmenta este crescimento em duas áreas centrais da operação digital. Por um lado, as organizações integradas na cadeia de fornecimento de semicondutores, que englobam entidades empresariais como a ASML, a Infineon e a STMicroelectronics, registaram uma valorização de aproximadamente vinte por cento desde o início de abril. Por outro lado, o tecido empresarial dedicado à construção e expansão de infraestruturas, onde se incluem os centros de dados e operações como a Schneider Electric ou a Prysmian, observou um avanço ligeiramente superior, na ordem dos vinte e dois por cento. Os responsáveis pela estratégia macroeconómica da TS Lombard indicam que o desempenho europeu nas áreas dos semicondutores e das infraestruturas tecnológicas iguala o crescimento do índice norte-americano Nasdaq, o qual subiu vinte e um por cento. Ainda assim, este crescimento europeu permanece ligeiramente abaixo do rali de vinte e oito por cento de Taiwan e consideravelmente distante da subida de cinquenta e cinco por cento registada pela bolsa da Coreia do Sul.

O ressurgimento global do interesse e da confiança nestes sistemas de processamento consolidou-se em abril, motivado pelos robustos resultados financeiros apresentados por grandes organizações tecnológicas dos Estados Unidos da América. O volume de negócios recente da Nvidia, que superou as expetativas de Wall Street para o primeiro trimestre, serviu para dissipar as dúvidas dos investidores sobre a sustentabilidade e a dimensão dos orçamentos corporativos alocados a esta área.

No espaço europeu, esta dinâmica de mercado é sustentada por uma alteração estrutural no paradigma de investimento. Os especialistas em estratégia global da Principal Asset Management, citados pela Reuters notam que a Europa tem direcionado capital de forma recorrente para a inovação em domínios críticos como a defesa, a segurança energética e as próprias infraestruturas de tecnologia ao longo dos últimos dois anos. Esta tendência de alocação de despesas de capital foi, de facto, acelerada pelas recentes tensões geopolíticas, garantindo uma base sólida para a continuidade deste ciclo tecnológico.

Para os profissionais que gerem os orçamentos de tecnologia e as infraestruturas empresariais, existe ainda um último dado com impacto nas decisões de alocação de recursos financeiros. Mesmo considerando as valorizações dos últimos meses, as empresas tecnológicas europeias apresentam múltiplos de mercado financeiramente mais económicos quando comparadas com as companhias dos Estados Unidos. O subíndice tecnológico europeu é transacionado a quase vinte e oito vezes os lucros esperados, um rácio de avaliação consideravelmente inferior ao múltiplo de quase trinta e cinco vezes que se verifica no mercado tecnológico norte-americano.

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