Operar num quadro regulatório cada vez mais exigente, responder a clientes que pedem níveis inéditos de personalização, enfrentar a concorrência implacável de fintechs e bancos digitais e, simultaneamente, lidar com riscos crescentes de cibersegurança, riscos climáticos e geopolíticos, ameaças reputacionais e pressões operacionais… são apenas alguns dos inúmeros desafios que hoje se colocam à banca.
E se a resposta passa, em grande parte, por redefinir modelos de operação, é impossível não destacar a importância do investimento em tecnologia: modernizar infraestruturas, melhorar a experiência do cliente, mas sobretudo reforçar as práticas de gestão de risco, que são o verdadeiro alicerce da resiliência bancária.
As recentes alterações geopolíticas e climáticas acrescentaram uma camada de complexidade ao panorama económico global, trazendo novos tipos de risco que impactam diretamente a banca. Esta realidade tem impulsionado investimentos significativos em tecnologia, permitindo aos bancos antecipar potenciais adversidades e reforçar a sua resiliência perante choques externos.
Neste contexto, a Inteligência Artificial (IA), incluindo a IA generativa, surge como uma das ferramentas mais promissoras para a banca, não só para melhorar a relação com o cliente, mas também para transformar profundamente a gestão de riscos, permitindo antecipar ameaças, agir com maior rapidez e integrar diferentes dimensões de risco numa visão única.
Já não é possível gerir riscos de forma isolada. A banca precisa de sistemas unificados de gestão de risco, alimentados por IA, que ofereçam uma visão integrada de riscos de crédito, liquidez, mercado, operacional e climático. Só assim é possível agir rapidamente, de forma estratégica e com agilidade na análise de cenários, antecipando potenciais choques e ajustando respostas em tempo útil, em vez de reagir de modo fragmentado. Os bancos que substituírem sistemas legados por uma abordagem integrada e mais suportada por IA irão alcançar ganhos transversais: maior precisão nos modelos preditivos, maior capacidade de simular cenários, eficiência operacional, melhor resposta regulatória e decisões estratégicas mais informadas.
Contudo, apesar do enorme potencial transformador, esta crescente adoção da IA não está isenta de riscos. Se, por um lado, a tecnologia promete maior precisão, agilidade e integração na gestão de riscos, por outro pode criar novas vulnerabilidades: modelos opacos que dificultam a transparência regulatória, enviesamentos nos dados que geram decisões injustas, maior exposição a ataques cibernéticos e riscos operacionais associados à integração em sistemas críticos.
Por isso, a banca deve apostar em IA, mas sempre com governança robusta, auditoria contínua e um enquadramento ético e regulatório claro, para que a tecnologia seja uma vantagem competitiva e não uma nova fonte de risco.
Desta forma, os bancos europeus têm avançado num ambiente caracterizado por quadros regulamentares mais rigorosos, que asseguram a privacidade e segurança dos dados dos clientes e promovem uma adoção da IA de forma ética, transparente e responsável. Este enquadramento, embora mais exigente, tem também funcionado como um fator de confiança junto de consumidores e reguladores, garantindo que a inovação tecnológica não compromete a integridade do sistema financeiro.
No entanto, esta prudência não deve ser confundida com imobilismo. Pelo contrário, a verdadeira vantagem competitiva residirá na capacidade dos bancos europeus — e, em particular, da banca portuguesa — de conciliar conformidade regulatória com inovação tecnológica.
Em última análise, a tecnologia não é apenas um suporte: é o motor que permitirá à banca redefinir a sua gestão de risco e assegurar resiliência num mundo em constante mudança.
Sandra Pisco é Business Solutions Specialist – Risk Management do SAS






