Agentes de IA pedem método

Empresas que pretendem criar agentes de IA precisam de um processo rigoroso para avaliar ferramentas e plataformas ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento, desde a conceção até à operação. Este artigo organiza os critérios essenciais discutidos por vários especialistas e aponta as implicações práticas para quem decide compras tecnológicas.
25 de Setembro, 2025

As organizações que exploram agentes de IA enfrentam um desafio duplo: selecionar plataformas capazes de cobrir o ciclo completo de desenvolvimento e, em paralelo, garantir que os sistemas resultantes são auditáveis, seguros e escaláveis em ambiente empresarial. A avaliação deve partir de um conjunto de tópicos que, combinados, reduzem o risco de projetos piloto sem continuidade e de “sprawl” de ferramentas difíceis de governar.

No arranque, ganha importância a capacidade de desenvolvimento e disponibilização. Os especialistas convergem em três pilares: configuração de comportamento sem alterações de código, com recurso a prompts, ferramentas e bases de conhecimento internas; frameworks de avaliação que suportem testes, benchmarking com referências do setor e validação contínua em cenários diversos; e funções de monitorização e reporting que registem interações, ofereçam análises em tempo real e fechos de ciclo de feedback acionáveis. Quando estas funções trabalham em conjunto, os agentes tornam-se mais fáceis de colocar em produção e mais consistentes no desempenho. A partir desta base, deve exigir-se capacidades de teste e operação desde o primeiro dia, evitando soluções que tratem o agente como “caixa-preta”.

Segue-se a integração de dados e a orquestração. Para dotar agentes de autonomia útil no negócio, a plataforma deve ligar-se a fontes e políticas internas, incluir mecanismos como engenharia de prompts, pipelines de dados, orquestração multiagente, registos de ferramentas, conectividade com modelos de linguagem e acesso a sistemas empresariais. A isto somam-se controlos equivalentes aos de uma linha de produção: gestão de acessos, observabilidade, avaliação de resultados e caminhos de escalada quando algo corre fora do previsto. Plataformas com suporte a Agentic AI precisam de encaixar num ecossistema de dados, governança e ferramentas que sustente a operação diária.

A experiência do programador é outro critério decisivo. Mesmo a melhor tecnologia perde tração se for opaca ou pesada de usar. Valoriza-se uma combinação de interface intuitiva, integração profunda com sistemas empresariais e governança embutida. A orquestração entre sistemas, a explicabilidade e a conformidade, bem como a aprendizagem contínua a partir do uso, marcam a diferença entre escalabilidade e projetos efémeros. Uma prática recomendada é envolver programadores com níveis distintos de experiência, definir uma janela para aprendizagem e experimentação, e recolher feedback estruturado antes de generalizar a adoção.

A integração e a interoperabilidade exigem atenção específica às fontes de dados e à capacidade de testar diferentes modelos e configurações. A transparência deve cobrir entradas, saídas, caminhos de decisão e dependências externas, preferindo-se opções com funções “no-code” para alargar o acesso a perfis não técnicos. A adaptabilidade ao longo do ciclo de vida — incluindo troca flexível de modelos e integração sustentada com sistemas empresariais — é condição para maturidade dos agentes. Concentrar a avaliação em poucos casos de uso de curto prazo tem sido uma das raízes do “tool sprawl”.

No plano operativo, importa medir a aptidão para aprender com a experiência. Isso implica criar loops de feedback verificáveis e consistentes, sensíveis à linguagem do negócio, aos papéis e aos fluxos de trabalho. Ajustar o vocabulário do agente durante o desenvolvimento ajuda a incorporar terminologia específica, nomes registados e linguagem relevante para clientes e equipas. Recomenda-se um percurso faseado: começar com subconjuntos de dados, envolver utilizadores beta para validar resultados e iterar modelos com base em métricas de uso e outras evidências, reforçando a confiança dos utilizadores finais.

A segurança orientada por princípios de “zero trust” torna-se central. Os agentes devem encaixar numa arquitetura de mínimos privilégios baseada em funções, integrar-se no ecossistema de observabilidade da organização e proteger dados em todo o ciclo de vida — da recolha e preparação ao treino, afinação e operação. Para eficácia prática, os agentes precisam de acesso a telemetria em tempo real, memória que persista entre interações e capacidade de desencadear ações em sistemas externos com os devidos controlos. Do ponto de vista de risco, os agentes expõem dados sensíveis, automatizam ações e assumem papéis de utilizador; por isso, as funções de segurança evoluirão para critério de seleção determinante.

Do lado das práticas de engenharia, valorizam-se funções DevOps nativas e compatibilidade com plataformas comerciais. Rastreabilidade de versões, testes integrados e guardrails éticos, bem como implantação controlada em múltiplos ambientes, habilitam equipas multifuncionais a conceber, construir, testar e disponibilizar agentes com segurança e escala. Face à evolução de modelos, dados e workflows, os requisitos em Continuous Testing, CI/CD e observabilidade devem ser elevados.

Por fim, a operação exige reporting eficaz. Um agente pode falhar de forma subtil — por exemplo, com alucinações — ou, pior, executar ações que impactem negativamente a marca. A monitorização não se esgota em SLA binários; é necessário rastrear como e por que motivo um agente chega a determinadas conclusões ou executa certas ações, algo ainda pouco comum nas ferramentas atuais. Sem painéis com taxas de sucesso, satisfação do utilizador e fontes de erro, torna-se difícil iterar com base no uso real. Daqui emerge a disciplina de Agent Operations (AgentOps), que combina práticas de DevOps e ModelOps, incluindo observabilidade e monitorização, para orquestrar, controlar e proteger agentes em escala após a sua entrada em produção. É expectável que as ferramentas de AgentOps agreguem capacidades de monitorização tradicional, AIOps e desenvolvimento específico para agentes.

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