A infraestrutura digital europeia vive um momento decisivo. O avanço da inteligência artificial, dos serviços de cloud e das aplicações empresariais de alta complexidade está a gerar uma procura sem precedentes de capacidade de processamento. As projeções indicam que a carga instalada de TI nos centros de dados na Europa deverá crescer de cerca de 10 gigawatts em 2023 para 35 gigawatts até 2030.
Em paralelo, o consumo energético destes centros deverá mais do que duplicar, passando de 62 terawatts-hora para mais de 150 terawatts-hora anuais, representando já no final da década cerca de 5% do consumo total de eletricidade da Europa. Esta aceleração, embora previsível, coloca a questão das infraestruturas energéticas e da capacidade de planeamento político e industrial como fatores críticos de competitividade.
O crescimento dos centros de dados enfrenta limites claros. Em vários países, a escassez de terrenos adequados, as restrições das redes elétricas e a morosidade nos licenciamentos estão a travar a expansão, ao mesmo tempo que mercados alternativos surgem com custos energéticos mais baixos e políticas públicas de incentivo. Assim, a decisão sobre onde instalar um data center tornou-se uma questão estratégica de primeira ordem.
A Alemanha mantém-se como um dos principais polos europeus, com Frankfurt no centro das interligações digitais globais graças ao DE-CIX, um dos maiores pontos de troca de tráfego da Internet no mundo. No entanto, a cidade enfrenta limitações físicas e burocráticas, com falta de espaço e redes saturadas. Mesmo assim, as previsões apontam para um aumento da capacidade de colocation de 1,3 para 3,3 gigawatts até 2029, com investimentos superiores a 24 mil milhões de euros.
O país tem também procurado assegurar a sustentabilidade do setor, sendo que 88% da eletricidade consumida pelos operadores alemães já provém de fontes renováveis, e 69% recorrem a contratos de longo prazo (PPAs). Contudo, a capacidade da rede elétrica continua a ser o principal gargalo.
Reino Unido e França: estratégias distintas, resultados convergentes
O Reino Unido adotou uma abordagem regulatória mais direta. Com a introdução do princípio “first ready, first connected”, previsto para 2026, pretende eliminar os longos atrasos nos acessos à rede elétrica, que podiam prolongar-se por quase uma década. Em 2024, o governo britânico classificou os centros de dados como infraestrutura nacional crítica, reforçando a confiança dos investidores. A Amazon Web Services (AWS), por exemplo, anunciou um investimento de 8 mil milhões de libras em novos centros de cloud e inteligência artificial.
Em França, a aposta recai sobre a estabilidade energética assegurada pela energia nuclear, com 57 reatores a fornecerem 63 gigawatts de capacidade constante e de baixo teor de carbono. O operador estatal EDF participa ativamente na promoção de novos projetos, oferecendo terrenos com ligação direta à rede e apoio técnico para acelerar a execução. Paris e Marselha afirmam-se como polos complementares, a primeira pela proximidade a centros empresariais e a segunda pela conectividade submarina.
Espanha: energia barata e política industrial
A Espanha tornou-se, em poucos anos, um dos mercados de data centers mais dinâmicos da Europa, beneficiando de acordos de compra de energia (PPAs) particularmente vantajosos. Só em 2023, o país liderou o mercado europeu de PPAs corporativos, com 2,77 gigawatts contratualizados. Madrid consolidou-se como hub central, mas a expansão estende-se a regiões como Aragão, onde a Microsoft planeia investir 2,9 mil milhões de euros num campus de data centers.
O país atrai igualmente investimentos industriais. A Siemens anunciou a criação de um novo Data Centre Hub vocacionado para aplicações industriais, demonstrando que o fenómeno não se limita aos gigantes da cloud. A conjugação de preços energéticos competitivos e políticas favoráveis está a transformar a Península Ibérica num dos destinos mais atrativos para operações de larga escala.
Portugal: o potencial que continua por explorar
No contexto ibérico, Portugal permanece em segundo plano, apesar de possuir vantagens evidentes: uma costa atlântica estratégica para ligações submarinas, condições climáticas favoráveis para o arrefecimento natural dos centros e uma crescente produção de energia renovável. Contudo, a ausência de uma estratégia nacional clara para o acolhimento de infraestruturas digitais de grande escala mantém o país fora das principais decisões de investimento.
Enquanto os vizinhos espanhóis constroem uma política energética e industrial articulada, Portugal continua a depender de iniciativas isoladas, muitas vezes limitadas por processos administrativos lentos e falta de coordenação entre entidades públicas. O país arrisca-se, assim, a ser apenas um ponto de passagem na geografia digital europeia, quando poderia ser uma das suas plataformas principais.
A Europa caminha para um modelo de infraestrutura digital multinodal, em que a proximidade à procura e a disponibilidade energética determinarão a localização dos centros de dados. Frankfurt e Londres continuam a garantir conectividade e baixa latência, enquanto França e Espanha oferecem estabilidade e energia competitiva.
Para as empresas, a escolha de localizações passará inevitavelmente por um equilíbrio entre custo, sustentabilidade e desempenho. E para países como Portugal, o desafio é transformar potencial em política — antes que a próxima vaga de investimento digital encontre outros portos de abrigo.







