Na WWDC de hoje, a Apple deverá anunciar melhorias no Apple Intelligence e no Siri que assentam, pelo menos em parte, em infraestrutura da Nvidia e do Google, duas empresas externas ao ecossistema fechado que sempre caracterizou a abordagem da Apple à privacidade são serão assim anunciados como a “tábua de inovação” da empresa de Cupertino.
A questão óbvia é: como pode a Apple garantir a privacidade dos utilizadores quando parte do processamento ocorre fora do seu controlo direto? A resposta parece estar numa convergência de padrões entre as três empresas. A Apple, o Google e a Nvidia parecem ter chegado a um consenso sobre o que a privacidade deve ser e como deve ser garantida, um desenvolvimento relevante num momento em que vários governos, com destaque para o Reino Unido, insistem em minar a encriptografia de ponta-a-ponta em nome da segurança pública.
Tanto a Apple como o Google têm historial de resistência a estas pressões. As duas empresas partilham também um interesse estratégico evidente na proteção da encriptografia contra ataques quânticos — ameaça crescente para a qual as chamadas backdoors (portas traseiras de acesso secreto aos sistemas) seriam vulnerabilidades particularmente perigosas. O que resultará concretamente desta aliança tecnológica ficará mais claro ao longo do dia, mas a sua existência já é, em si mesma, um sinal relevante para o mercado, a Apple, em matéria de privacidade, deixou de poder estar sozinha.
A segunda aposta é o mais imediato nas suas consequências comerciais. O MacBook Neo, a versão de entrada da linha Mac, disponível desde março a partir de 599 euros, está a vender em volumes suficientemente expressivos para obrigar a IDC a rever em alta as suas previsões de crescimento do mercado de portáteis, mesmo numa conjuntura em que as vendas de portáteis com Windows deverão cair de forma significativa.
A explicação reside numa combinação de fatores que os concorrentes têm dificuldade em replicar. O MacBook Neo inclui processadores Apple Silicon otimizados para trabalhar com apenas 8 GB de memória RAM de forma notavelmente eficiente equivalendo a um desempenho que muitos portáteis Windows com especificações semelhantes ou superiores não conseguem igualar. A subida dos preços dos componentes, em particular da memória, está a empurrar alguns concorrentes para configurações igualmente limitadas em RAM, mas sem a mesma eficiência de sistema. Há portáteis Windows no mercado a 800 euros com 8 GB de memória que ficam abaixo do que o Mac de entrada oferece, incluindo a capacidade de correr o próprio Windows através de virtualização, com bom desempenho.
A Apple construiu uma vantagem competitiva sólida num momento em que os fabricantes de portáteis tradicionais enfrentam pressões existenciais no segmento intermédio do mercado. Cada novo utilizador que entra no ecossistema Mac representa potencial de crescimento nas assinaturas de serviços Apple e em ciclos futuros de atualização de equipamento e acessórios.
A Apple chega a esta WWDC com o Mac no pico da sua relevância no mercado de massas, uma posição de força no segmento de wearables e uma estratégia de IA que aposta no processamento local sem custos adicionais para o utilizador. No setor da inteligência artificial, onde vários concorrentes sustentam modelos de negócio assentes em investimentos avultados cujo retorno parece ter atingido o limite, obrigando as empresas de IA a alterar estratégias, a Apple pode ter encontrado um caminho diferente e potencialmente mais sustentável. O keynote de hoje, com início às 18h00 em Portugal continental, dirá se a empresa consegue concretizar na demonstração pública o que os movimentos estratégicos das últimas semanas prometem.

