As novas táticas dos confrontos cibernéticos

Um novo relatório da TrendAI especializada em cibersegurança empresarial alerta para a convergência entre ciberataques e geopolítica, a utilização de modelos de linguagem para gerar código malicioso e a consolidação de esquemas de acesso partilhado entre os intervenientes.
30 de Abril, 2026

O último relatório elaborado pela TrendAI, a unidade de negócios empresarial da Trend Micro, traça um panorama em que as operações de guerra cibernética se entrelaçam cada vez mais estreitamente com os interesses geoestratégicos dos Estados. O documento descreve uma colaboração crescente entre grupos APT (sigla que designa ameaças persistentes avançadas, geralmente equipas altamente especializadas com apoio estatal ou ligações governamentais) e uma convergência cada vez mais nítida entre as ações digitais, os objetivos políticos dos governos e as dinâmicas militares ou de influência.

Entre as conclusões que o documento destaca figura a incorporação de modelos de linguagem no funcionamento de programas maliciosos ativos, uma evolução que dota o código de ataque de capacidades de geração e adaptação até então inéditas.

O relatório também aponta para a consolidação de esquemas de acesso partilhado sob a fórmula Premier Pass-as-a-Service, um modelo em que diferentes atores partilham a utilização de credenciais ou acessos comprometidos, bem como para o papel crescente das infraestruturas de ponta e da cadeia de abastecimento como portas de entrada e mecanismos de persistência dentro das organizações vítimas.

José de la Cruz, diretor técnico da TrendAI, defende que a situação responde a uma transformação profunda na natureza da ameaça. Na sua análise, a inteligência artificial teria deixado de desempenhar um papel auxiliar para se erigir como um multiplicador de força que reduz drasticamente as margens de reação de quem defende os sistemas. Na sua opinião, o desafio que as empresas e as administrações públicas enfrentam já não se limita a impedir a intrusão, mas abrange a capacidade de a detetar com maior antecedência, contê-la com mais eficácia e restabelecer a normalidade operacional em prazos mais curtos.

O estudo identifica o presente exercício como um momento determinante na luta pela autonomia tecnológica, particularmente no domínio da inteligência artificial. A China figura no documento como o ator mais avançado no desenvolvimento de capacidades próprias neste domínio, face a outros países como a Rússia ou a Coreia do Norte, que mantêm uma dependência mais acentuada de tecnologias provenientes do exterior.

Para os próximos meses, a TrendAI prevê uma intensificação desta dinâmica, com a velocidade e a automatização como elementos diferenciadores. De la Cruz prevê que o próximo bienal será caracterizado por uma competição pela resiliência executada à velocidade de uma máquina, na qual as organizações que persistirem na utilização de ferramentas desconexas e em tempos de resposta dependentes da intervenção manual ficarão em desvantagem face a adversários cada vez mais automatizados e coordenados entre si.

Perante este cenário, a empresa apela a uma revisão profunda das estratégias de cibersegurança corporativa e, assim, o relatório aconselha a superar as abordagens focadas exclusivamente na prevenção e a orientar-se para modelos sustentados na visibilidade contínua, na capacidade de contenção e na recuperação ágil.

Num ambiente em que as intrusões tendem a apresentar-se como um acontecimento cada vez mais difícil de evitar por completo, o documento conclui que a resiliência se torna o fator decisivo para preservar a continuidade do negócio.

Opinião