Guilherme Luz, Senior Solutions Consultant da Appian, falou ao Digital Inside durante o evento Appian Around the World, em Lisboa. Na conversa, explicou como a integração de inteligência artificial em processos empresariais está a evoluir, com especial destaque para a crescente adoção no setor público europeu.
Guilherme Luz é um veterano do setor tecnológico, com mais de 15 anos de experiência em pré-venda, arquitetura de soluções e transformação digital em plataformas SaaS e cloud. Depois de passagens por empresas como HP, Oracle e Talkdesk, é hoje Senior Solutions Consultant na Appian, empresa especializada em automação de processos empresariais. Durante o evento Appian Around the World, realizado em Lisboa, explicou como a empresa está a aplicar inteligência artificial nos fluxos de trabalho das organizações — e porque vê no setor público uma das maiores oportunidades de impacto.
O que é o “Appian Around the World”é com são os objetivos deste vosso evento?
O Appian Around the World faz parte de uma série global da Appian. .Já o apresentámos em várias cidades — recentemente estive em Riade, na Arábia Saudita. O objetivo é mostrar como automatizar processos com tecnologia Appian, e agora, em particular, como incorporar inteligência artificial nesses processos. A ideia central é ajudar as organizações a entender como aplicar IA de forma adequada, segura e eficaz.
Como é que a Appian concretiza essa integração da IA nas suas soluções?
A nossa plataforma tem funcionalidades nativas que permitem modelar dados, definir processos e ligar todos os elementos de um sistema empresarial. Já fazemos isso há muitos anos. O que mudou recentemente é a introdução das chamadas I-Skills, que são blocos reutilizáveis com capacidades de IA. Por exemplo, podemos extrair texto de documentos ou identificar dados pessoais automaticamente — e tudo isso é inserido num processo com contexto e rastreabilidade. Sempre que uma IA toma uma decisão, conseguimos saber o que foi feito, porquê e com que base.
De que forma esta tecnologia evoluiu nos últimos meses?
Nos últimos seis meses, as nossas ferramentas deram um salto significativo. Já é possível gerar aplicações completas com IA, incluindo modelos de dados e interfaces, a partir de documentos que nunca vimos antes. Apresentei um caso durante o evento com um extrato bancário italiano. Sem qualquer configuração manual, o sistema extraiu toda a informação relevante com precisão. É este tipo de agilidade que está a mudar o jogo.
Estas soluções parecem feitas à medida de grandes empresas. Como é que as PME se encaixam neste cenário?
É verdade que o foco inicial tem sido grandes organizações, devido à complexidade dos seus processos. Mas isso não significa que as pequenas empresas estejam excluídas. Podem começar com uma aplicação pontual e evoluir a partir daí. À medida que os custos da tecnologia baixam — tanto da IA como da automação — a barreira de entrada vai diminuindo.
Há diferenças claras entre geografias. Que tendências observa nos diferentes mercados?
Na Arábia Saudita, por exemplo, a regulação ainda não permite o uso aberto de IA. Mas a conversa já começou, e isso é importante. Dentro de alguns anos, estas soluções vão tornar-se commodities, tal como hoje já o são as clouds. O que interessa é começar agora.
Quais são os setores que mais procuram a Appian? E aqueles que, pessoalmente, mais o entusiasmam?
Temos visto um crescimento muito forte no setor público, especialmente em Espanha e agora também em Portugal. Vencemos recentemente dois concursos em entidades públicas portuguesas. Para mim, isso é particularmente relevante porque os benefícios não ficam apenas dentro da organização. Afetam diretamente o cidadão. Em vez de automatizar uma tarefa interna num banco, estamos a melhorar o acesso a serviços públicos essenciais.
Pode dar um exemplo prático?
Imagine que vai a um balcão de um serviço publica muito requisitado pelos cidadãos, tratar de um problema. O funcionário que o atende teria acesso imediato a todos os dados relevantes, e a plataforma apresentaria recomendações com base em casos semelhantes. A decisão continua a ser humana, mas o suporte é automatizado, contextualizado e imediato. Isso reduz o tempo de espera e melhora a qualidade do serviço.
Como lidam com as exigências da regulação europeia, especialmente no que toca a dados e IA?
A Appian Cloud pode ser instalada em qualquer zona da AWS na Europa, garantindo a residência dos dados no espaço europeu. A nossa plataforma foi desenhada com a privacidade em mente. É possível rastrear quem acedeu a que dados, porquê e como foi tomada cada decisão algorítmica. Os clientes podem, claro, integrar sistemas externos, mas a responsabilidade sobre esses elementos é deles.
Como funciona, na prática, essa plataforma cloud da Appian?
É uma plataforma low-code que reúne todos os componentes necessários para criar, melhorar e automatizar processos empresariais. Permite criar interfaces, fluxos de trabalho, modelos de dados e ligações entre todos esses elementos. Além disso, temos os Agentes de IA e, em breve, os Agentes RPA, que vão permitir que mesmo tarefas falhadas por robôs de automação possam ser corrigidas por IA com base em instruções contextuais.
A IA na Appian funciona isoladamente ou em rede com outros componentes?
Funciona com contexto. A nossa vantagem está em integrar dados, processos e decisões numa única estrutura. Os agentes de IA não são caixas negras — estão inseridos num sistema que lhes fornece a informação de que precisam para tomar decisões mais eficazes. Isso permite orquestrar múltiplos agentes num mesmo fluxo de trabalho.
Falando de tecnologia e geopolítica, acredita que a Europa pode vir a competir com os Estados Unidos ou a China neste campo?
A capacidade existe. O problema está no investimento. Nos EUA, as grandes empresas conseguem influenciar políticas e mobilizar capital com rapidez. Na Europa, há mais regulação e mais hesitação. Mas vemos alguns sinais positivos — como o anúncio do Reino Unido de disponibilizar IA a toda a população. Ainda assim, criar infraestruturas ao nível das big tech norte-americanas será extremamente difícil sem uma estratégia conjunta entre empresas europeias.







