O Banco Central Europeu (BCE) iniciou um novo passo no processo de desenvolvimento do euro digital ao abrir candidaturas para especialistas que irão contribuir para a definição das regras de funcionamento desta futura moeda em pagamentos do dia-a-dia. A iniciativa antecipa tanto a aprovação legislativa necessária como uma decisão formal do conselho do banco sobre a sua emissão.
O BCE está a recrutar especialistas para definir regras operacionais do euro digital, com foco em caixas automáticas e terminais de pagamento utilizados no comércio. Esta fase de trabalho centra-se em aspetos técnicos críticos para a adoção prática da moeda, nomeadamente a forma como os sistemas existentes poderão ser adaptados para processar pagamentos digitais denominados em euros.
Em concreto, uma das frentes de trabalho agora abertas irá estabelecer como os caixas automáticos e os terminais de ponto de venda irão suportar o euro digital. Estão em análise questões como a conectividade dos dispositivos, a capacidade de realizar transações offline e a integração com os padrões de pagamento já em uso. O objetivo é garantir que o euro digital funcione de forma consistente em toda a zona euro, tanto em levantamentos como em pagamentos no retalho.
Paralelamente, o BCE está a estruturar um segundo eixo de desenvolvimento centrado na certificação de sistemas e infraestruturas. Este grupo ficará responsável por definir os processos de teste e validação das soluções tecnológicas que venham a suportar pagamentos em euro digital. A certificação será determinante para assegurar a interoperabilidade e a confiança nos sistemas de pagamento que venham a integrar esta nova moeda.
O avanço técnico ocorre num momento em que o projeto ainda depende de decisão política. Em dezembro, a presidente do BCE, Christine Lagarde, indicou que o trabalho preparatório tinha sido concluído, passando a responsabilidade para o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu. Caso o enquadramento legal seja aprovado, o BCE admite uma possível implementação do euro digital até 2029.
Enquanto o banco central desenvolve a sua proposta, o setor financeiro europeu também se movimenta. Um consórcio de 12 bancos, entre os quais BBVA, ING e BNP Paribas está a desenvolver o projeto Qivalis, que prevê o lançamento de uma stablecoin indexada ao euro já no segundo semestre de 2026. Esta iniciativa pretende oferecer pagamentos baseados em blockchain sem recorrer a moedas digitais associadas ao dólar, introduzindo uma alternativa privada ao euro digital.
Para os decisores de tecnologia e responsáveis de compras, este duplo movimento — público e privado — sinaliza uma transformação estrutural nos sistemas de pagamento europeus. A eventual introdução do euro digital implicará adaptações técnicas em terminais, redes e processos de certificação, ao mesmo tempo que novas soluções baseadas em blockchain começam a ganhar terreno.






