Segundo a Reuters a partir de Seul, o avanço acelerado da inteligência artificial está a criar um problema inesperado: a falta de chips de memória “tradicional” usados em servidores, PC e smartphones. À medida que os grandes fabricantes canalizam os seus esforços para produzir componentes de alto desempenho – os chamados HBM, essenciais para os chips de IA –, as linhas de produção dedicadas aos chips mais convencionais começam a escassear. E com isso, os preços estão a disparar.
O impacto já se sente em toda a cadeia de fornecimento. Fabricantes de dispositivos eletrónicos estão a correr para garantir stock, numa vaga de compras apressadas que faz lembrar anteriores crises de fornecimento. Há até relatos de encomendas duplicadas ou triplicadas por precaução, numa tentativa de garantir acesso a componentes que, até há poucos meses, estavam amplamente disponíveis.
Este desequilíbrio está a dar novo fôlego a empresas como a Samsung, que tem estado atrás da concorrência na corrida aos chips de IA, mas que agora beneficia da recuperação do mercado de DRAM.
A reconfiguração do setor começou no final de 2022, quando a popularização do ChatGPT desencadeou uma vaga de investimentos em data centers especializados para IA. Os grandes nomes – da Nvidia aos hiperescaladores como Microsoft, Amazon, Meta ou Alphabet – começaram a absorver capacidade produtiva de chips de memória de alto débito. O objetivo: alimentar modelos de linguagem, sistemas de visão computacional e outras aplicações exigentes.
A produção de DRAM convencional foi, aos poucos, ficando para segundo plano. Com isso, a oferta começou a encolher, mesmo num momento em que a procura pelos PC e smartphones estava a recuperar acima do esperado. Ao mesmo tempo, muitos operadores de centros de dados estão agora a substituir equipamentos adquiridos no ciclo anterior de 2017-2018, contribuindo para a pressão sobre os stocks.
Os números mostram bem a mudança. Os preços spot de módulos DRAM quase triplicaram em setembro face ao mesmo mês do ano passado, depois de terem subido apenas 4% em abril. E o nível médio de inventário caiu para oito semanas, contra 10 semanas em 2024 e 31 no início de 2023.
Esta situação está a redesenhar o equilíbrio de rentabilidade no setor. Durante o terceiro trimestre, a margem operacional da Samsung na venda de DRAM convencionais chegou aos 40%, contra 60% nas HBM. Mas se a tendência de valorização continuar, os analistas acreditam que os chips tradicionais poderão tornar-se mais lucrativos do que os HBM já no próximo ano.
Além da pressão vinda da IA, os fabricantes enfrentam também concorrência crescente de empresas chinesas como a CXMT, que têm vindo a ganhar quota em segmentos de menor valor acrescentado. Como resposta, grupos como a Samsung e a SK Hynix – que juntas controlam cerca de 70% do mercado global de DRAM – estão a reforçar a sua aposta em chips mais avançados, o que agrava ainda mais a escassez nos restantes segmentos.
Com 400 mil milhões de dólares previstos para investimento em infraestruturas de IA só este ano, segundo estimativas do Morgan Stanley, não há sinais de alívio no curto prazo. Pelo contrário: a escassez de chips de memória pode tornar-se um dos principais fatores de instabilidade para quem depende de servidores, equipamentos de rede ou dispositivos inteligentes. E os responsáveis de compras tecnológicas nas empresas vão precisar de agir com cautela nos próximos meses.







