Bruce Dickinson é conhecido em todo o mundo como vocalista dos Iron Maiden, mas no palco do Building the Future, em Lisboa, apresentou-se sobretudo como empresário, investidor e empreendedor. A intervenção centrou-se menos na música e mais na forma como a tecnologia, criatividade e liderança se cruzam quando se constroem projetos em diferentes setores.
A reflexão que Bruce Dickinson, trouxe à plateia do Building the Future, coloca as pessoas no centro da inovação tecnológica, deixando claro com alguns dos seus exemplos que, mesmo numa era dominada por inteligência artificial e automação, a tecnologia continua a depender das pessoas que a utilizam, desenvolvem e lideram.
Dickinson começou por recorrer a um episódio recente da sua vida pessoal para ilustrar as limitações da tecnologia no quotidiano. Depois de regressar de uma viagem aos Estados Unidos e de se mudar para uma nova casa, acabou por não conseguir entrar porque o sistema tecnológico das portas falhou. O episódio serviu como ponto de partida para uma reflexão mais ampla: por mais sofisticados que sejam os sistemas digitais, continuam a existir problemas práticos que exigem intervenção humana.
Este tipo de experiência, explicou, é um lembrete de que a tecnologia não resolve tudo por si só. A inovação depende da forma como as pessoas pensam, resolvem problemas e tomam decisões em situações imprevistas.
A partir dessa introdução, Dickinson abordou a forma como a tecnologia tem transformado o processo criativo no setor musical. Ferramentas digitais e sistemas baseados em inteligência artificial estão a alterar a forma como se produzem e distribuem conteúdos, mas não eliminam o papel da criatividade humana.
Na sua perspetiva, a inteligência artificial pode acelerar processos ou apoiar decisões, mas não substitui a capacidade humana de imaginar, criar ou liderar projetos complexos.
Negócios que nasceram fora do palco
A carreira empresarial de Dickinson estende-se a áreas muito diferentes da música. Um dos exemplos mais conhecidos é a marca de cerveja Trooper, criada a partir do universo da banda e que acabou por se tornar num produto comercial distribuído em vários mercados.
O desenvolvimento do projeto levou a uma constatação simples: os gostos variam de país para país. Em vez de replicar exatamente a mesma receita em todos os mercados, a estratégia passou por adaptar o produto às preferências locais.
A decisão de criar variações da cerveja para diferentes países partiu da ideia de que os consumidores não são homogéneos e que a adaptação cultural pode ser um fator decisivo no sucesso de um produto.
Esta abordagem, segundo explicou, contrasta com estratégias mais padronizadas utilizadas por grandes marcas globais, que tentam manter um perfil idêntico em diferentes mercados.
Outro exemplo apresentado no palco do Building the Future veio do setor da aviação. Dickinson recordou que, após deixar de pilotar aviões comerciais, passou a dedicar-se a projetos empresariais ligados à manutenção aeronáutica.
Um desses projetos foi a criação de uma instalação industrial na Alemanha, iniciada em 2013, dedicada a inspeções técnicas profundas de aeronaves. A operação envolve cerca de 300 engenheiros e mecânicos e exige elevados níveis de especialização técnica.
Apesar de recorrer a ferramentas digitais e a sistemas baseados em inteligência artificial, Dickinson sublinhou que a manutenção de aeronaves continua a depender sobretudo do conhecimento humano e da experiência técnica das equipas.
Ao longo da sua intervenção, Dickinson também falou de liderança em contextos complexos e exigentes. A experiência acumulada em diferentes áreas — música, aviação e negócios — permitiu-lhe observar como equipas altamente especializadas funcionam quando enfrentam pressão operacional.
A sua conclusão é pragmática: tecnologia pode apoiar processos, mas a responsabilidade de tomar decisões continua a recair sobre as pessoas.
Para Dickinson, criar e escalar projetos, sejam eles criativos ou tecnológicos, exige visão, capacidade de adaptação e equipas capazes de lidar com imprevistos.
No final, a intervenção regressou ao ponto inicial da conversa. Num evento dedicado à transformação digital, o vocalista dos Iron Maiden optou por falar sobretudo de humanidade.
Porque, na sua perspectiva, mesmo no meio de algoritmos, automação e inteligência artificial, o fator decisivo continua a ser quem está por trás das máquinas.







