Bruxelas fecha a porta à cloud americana

A União Europeia prepara-se para apresentar uma proposta regulatória que introduz critérios rigorosos para os serviços de computação na cloud nos concursos públicos estatais de elevada criticidade. Esta iniciativa, inserida num pacote legislativo mais amplo, visa reduzir a dependência face às grandes empresas tecnológicas norte-americanas e impulsionar o tecido empresarial comunitário.
1 de Junho, 2026

A Comissão Europeia planeia propor critérios estritos para serviços de cloud em concursos públicos estatais altamente críticos, uma medida que poderá afastar os principais fornecedores norte-americanos, como a Amazon, a Microsoft e a Google, destes projetos específicos. A iniciativa integra a designada Lei de Desenvolvimento de Cloud e IA, um mecanismo regulatório que será apresentado publicamente na próxima quarta-feira. Este pacote legislativo procura, de forma estruturada, mitigar a dependência do bloco face à tecnologia dos Estados Unidos da América e fomentar os negócios locais.

A introdução destas exigências de soberania em setores sensíveis, entre os quais a banca, a energia e os cuidados de saúde, decorre do receio institucional em relação ao domínio de mercado das grandes empresas americanas. Adicionalmente, pesam as preocupações com legislações externas, como o Cloud Act norte-americano, que obriga os fornecedores sediados nos Estados Unidos da América a facultarem o acesso das autoridades aos dados armazenados, mesmo que estes estejam guardados em servidores localizados no estrangeiro. O plano da União Europeia introduz critérios obrigatórios não relacionados com o preço nos concursos públicos, exigindo que o software e o hardware sejam desenvolvidos no espaço comunitário, o que coloca as grandes tecnológicas americanas numa posição de desvantagem competitiva direta nestes contratos.

Para se tornar efetivo, este plano da Comissão Europeia necessita ainda de concordância e validação formal dos 27 Estados-membros da União Europeia e do Parlamento Europeu ao longo dos próximos meses. Claro está que Washington, nãos e vai calar esperam-se severas criticas e até quem sabe ameaças e represálias, algo que já se normalizou.

A Comissão Europeia propôs ainda atuar como uma central de compras unificada para os países e instituições da União Europeia, assumindo a responsabilidade de gerir a aquisição de serviços de centros de dados, cloud, software e sistemas de inteligência artificial para si própria e para os restantes organismos comunitários.

Para além das restrições, o projeto desenha incentivos claros para a infraestrutura local. Segundo a Reuters, o rascunho legislativo estabelece um processo de aprovação rápida e simplificada para centros de dados, os quais beneficiarão de acesso preferencial à rede elétrica e de taxas de rede reduzidas sempre que utilizem circuitos integrados de fabrico europeu ou demonstrem uma diminuição efetiva dos seus custos energéticos. Este modelo de incentivos liga-se diretamente à estratégia partilhada na semana transata sobre a nova Lei dos Chips (Chips Act 2.0), uma normativa que alarga o espetro de empresas elegíveis para receber financiamento estatal em tecnologias consideradas estratégicas.

É de realçar que, a Amazon, a Microsoft e a Google detêm em conjunto uma quota superior a 60% no mercado global de serviços cloud. Cientes das pressões regulatórias e das exigências de soberania no território europeu, estas três entidades têm procurado adaptar os seus modelos de negócio através de diferentes abordagens estruturais. Recentemente, a Amazon lançou um serviço alojado integralmente na Europa, isolado física e juridicamente do resto da sua infraestrutura global. A Microsoft seguiu a via de parcerias com controlo local, destacando-se a Bleu, detida pelas operadoras francesas Capgemini e Orange, e a Delos Cloud, uma subsidiária da SAP que recorre à infraestrutura técnica do Microsoft Azure. A Google, por sua vez, tem tentado manter-se elegível para os contratos públicos europeus mais sensíveis através da S3NS — uma empresa conjunta focada na nuvem e controlada pela Thales — e de uma parceria paralela firmada com o fornecedor de infraestruturas tecnológicas francês OVHcloud.

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