Bruxelas reformula regras das telecomunicações para acelerar redes de fibra na UE

ma proposta da Comissão Europeia para reformar as regras do setor das telecomunicações promete dar mais estabilidade ao investimento em redes, ao permitir licenças de espectro sem limite de duração.
21 de Janeiro, 2026

O executivo comunitário apresentou esta semana o Digital Networks Act, uma proposta legislativa que pretende rever em profundidade o enquadramento regulatório das telecomunicações na União Europeia. O objetivo central passa por criar condições mais previsíveis e homogéneas para o investimento em redes digitais em todo o espaço comunitário, num momento em que Bruxelas assume como meta a cobertura total de fibra ótica entre 2030 e 2035.

Um dos pontos mais relevantes da proposta é a alteração do regime de licenciamento do espectro radioelétrico. A Comissão Europeia propõe que as licenças passem a ter duração ilimitada, sendo renováveis por defeito, substituindo o modelo atual, que prevê concessões por um período mínimo de 20 anos. Segundo o executivo europeu, esta mudança aumenta a previsibilidade regulatória e reduz a fragmentação entre Estados-membros, fatores considerados críticos para decisões de investimento de longo prazo.

Um responsável da Comissão sublinhou que o licenciamento ilimitado do espectro é um sinal político claro de que o setor das telecomunicações é considerado estratégico e digno de investimento. A proposta prevê ainda que Bruxelas defina orientações comuns sobre a duração das licenças, as condições de venda das frequências e uma metodologia de preços a aplicar nos leilões, servindo de referência para os reguladores nacionais.

Na apresentação do diploma, a comissária europeia responsável pela área digital, Henna Virkkunen, defendeu que infraestruturas digitais de elevado desempenho e resilientes são essenciais para reforçar a inovação, a competitividade e a soberania digital da Europa. A Comissão afirma querer criar um ambiente digital onde novas tecnologias sejam acessíveis e baseadas em regras consideradas justas e fiáveis para os cidadãos e para as empresas.

Apesar do reforço dado à estabilidade regulatória, a proposta não responde a uma reivindicação antiga dos grandes operadores europeus. Grupos como a Deutsche Telekom, a Orange, a Telefónica e a Telecom Italia têm defendido que as grandes plataformas tecnológicas deveriam pagar uma taxa de rede, argumentando que geram uma parte significativa do tráfego de Internet e, por isso, contribuem para a pressão sobre as infraestruturas.

Em vez de impor uma contribuição obrigatória às chamadas Big Tech, o Digital Networks Act propõe um mecanismo de cooperação voluntária entre operadores de telecomunicações e grandes empresas tecnológicas. Este modelo prevê acordos entre as partes para apoiar o financiamento da expansão das infraestruturas digitais, mas sem qualquer obrigação legal de pagamento.

Entre as empresas referidas neste contexto estão a Google, a Netflix e a Meta Platforms, frequentemente apontadas pelos operadores como responsáveis por volumes elevados de tráfego.

A proposta agora apresentada terá ainda de ser negociada e aprovada pelos Estados-membros e pelo Parlamento Europeu nos próximos meses. Só depois desse processo legislativo o novo quadro regulatório poderá entrar em vigor, num calendário que será acompanhado de perto por operadores, reguladores e decisores de compras tecnológicas em toda a Europa.

Opinião