Burlas digitais custam mais em Portugal do que na média global

O ecossistema corporativo e de consumo em Portugal enfrenta uma sofisticação sem precedentes nas campanhas de engenharia social através de aplicações de mensagens instantâneas. Um novo estudo global promovido pela Kaspersky, intitulado “The Great Messaging Heist”, coloca os utilizadores nacionais numa posição de particular vulnerabilidade financeira e operacional. A convergência entre canais digitais e a integração de ferramentas de Inteligência Artificial estão a acelerar o ritmo dos ataques, transformando interações quotidianas em perdas financeiras consideráveis em escassos minutos.
5 de Junho, 2026

A análise histórica do cibercrime em ambiente corporativo e privado demonstra que o fator humano continua a ser o elo mais explorado pelas redes de fraude organizada. O WhatsApp lidera as estatísticas em Portugal, sendo o canal principal para estas ações em 56,57% dos casos registados, um valor significativamente acima da média global de 43%. Os canais tradicionais de SMS e iMessage surgem logo de seguida, afetando 49,4% dos utilizadores nacionais, enquanto o Facebook representa 17,5% das ocorrências no mercado local.

A dinâmica destes ataques caracteriza-se por uma transição fluida entre ecossistemas, com 60% das fraudes direcionadas a cidadãos portugueses a envolverem múltiplas plataformas de forma sequencial, movendo-se habitualmente de mensagens SMS para ambientes como o WhatsApp ou o Telegram. Mais de metade dos utilizadores portugueses afetados entregou dinheiro ou dados pessoais em menos de 30 minutos, sendo que uma franja de 14% concluiu essa cedência num espaço inferior a cinco minutos.

Elisabeth Carter, linguista forense e criminologista na Kingston University London, esclarece que os operadores destas redes manipulam contextos reconhecíveis, ambientes sociais familiares e normas linguísticas enraizadas. Esta abordagem visa conferir uma perceção de racionalidade e razoabilidade às decisões das vítimas no momento da interação. O processo baseia-se na construção de realidades ficcionais que culminam em prejuízos financeiros e psicológicos, cuja identificação se torna complexa a partir do interior do próprio cenário fraudulento. A especialista recomenda a partilha de atividades digitais com familiares e amigos próximos, uma vez que a perspetiva externa facilita a deteção de anomalias nas comunicações.

No plano estritamente financeiro, os dados revelam assimetrias importantes entre a realidade nacional e a moldura global. Embora a taxa de utilizadores portugueses que efetivamente perdeu capitais nas burlas seja de 43%, um valor abaixo dos 51% da média global, o impacto por ocorrência é substancialmente mais severo em território nacional. Em média, cada vítima em Portugal sofreu um prejuízo financeiro superior a 800 euros por fraude, contrastando com a média global que se fixa nos 675 euros. No que concerne à expropriação de dados pessoais, o mercado português registou uma incidência de 22,3%.

A distribuição dos prejuízos materiais indica que 45,4% dos afetados em Portugal registaram perdas inferiores a 125 euros. Contudo, mais de 18% das vítimas portuguesas enfrentaram perdas superiores a 1.245 euros, superando a taxa global de 11% para este escalão de prejuízo. Adicionalmente, verifica-se que 28% dos participantes no estudo foram visados por estas estruturas criminosas três ou mais vezes num período de seis meses.

O panorama técnico do problema agrava-se com a introdução de tecnologias automatizadas de processamento. Os grupos criminosos recorrem de forma crescente a conteúdos gerados por sistemas de Inteligência Artificial, clonagem de voz, imagens falsas e simulações digitais profundas para elevar o grau de verosimilhança das mensagens. Apenas 29,1% dos participantes portugueses demonstraram consciência da utilização de Inteligência Artificial nos esquemas, manifestando uma assimetria em relação aos 66% apurados nos restantes mercados geográficos. Esta reduzida perceção local quanto à sofisticação tecnológica das mensagens correlaciona-se diretamente com uma maior propensão para a validação interna destas abordagens.

Por fim, o impacto pós-incidente manifesta-se em vetores do foro psicológico e comportamental. Entre as respostas recolhidas junto dos utilizadores em Portugal, 51% reportaram sentimentos de raiva, 35% manifestaram frustração e 26,2% registaram estados de medo ou perturbação emocional decorrentes da quebra de segurança e da perda de ativos.

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