A leitura dos dados globais mostra um mercado que entrou numa fase de consolidação. Os Estados Unidos continuam a liderar em volume, com 205,2 milhões de utilizadores estimados, ou 17,1% do total mundial, seguidos de muito perto pela Índia, com 198 milhões. Brasil e Canadá mantêm-se como mercados de elevada relevância, refletindo não apenas dimensão populacional, mas também maturidade digital e facilidade de incorporação destas plataformas em tarefas do quotidiano.
Com base na análise de Paulo Hoffman da BestBrokers, posso afirmar que o dado mais importante não é necessariamente a liderança norte-americana. O que sobressai é a proximidade entre os dois maiores mercados e a dispersão geográfica da adoção, que confirma que a inteligência artificial generativa já ultrapassou a fase de experimentação em economias de grande escala. A quota global de 60,4% no segmento dos chatbots generativos, registada em março de 2026, reforça esta posição dominante.
Na Europa, o padrão é igualmente revelador. França, Espanha e Reino Unido surgem entre os mercados com maior utilização, o que demonstra que a adoção está a evoluir de forma transversal entre economias maduras. A relevância desta tendência está menos no número bruto de utilizadores e mais no facto de a IA conversacional estar a tornar-se parte dos hábitos digitais correntes, tanto em contextos individuais como profissionais.
O Canadá oferece um dos sinais mais interessantes desta nova fase. A média estimada de 130 mensagens por cidadão por ano sugere um nível de dependência funcional superior ao de outros mercados. Em termos de análise de mercado, este é o tipo de métrica que melhor ajuda a perceber maturidade real, porque mede recorrência e não apenas curiosidade inicial.
O mesmo raciocínio aplica-se aos Países Baixos, cuja taxa de adoção estimada de 72% aponta para um mercado particularmente avançado na integração de IA em rotinas digitais. Em contraste, a Coreia do Sul apresenta o mesmo volume absoluto de visitantes, mas com uma penetração populacional significativamente inferior. Esta diferença mostra como números absolutos, por si só, podem esconder estádios de adoção muito distintos.
A América Latina merece também atenção pela velocidade de crescimento. Brasil e México, com mais de 110 milhões de utilizadores combinados, posicionam-se como uma das geografias com maior potencial de expansão sustentada, impulsionada por uma rápida digitalização dos hábitos de consumo e trabalho.
Portugal entra na fase de utilização consistente
Em Portugal, o dado mais relevante é o posicionamento do ChatGPT como sexto site mais visitado no país no final de 2025. Mais do que um indicador de notoriedade, este lugar no ranking traduz a normalização do uso da plataforma no consumo digital diário.
A taxa estimada de utilização de 17,22% da população portuguesa, acompanhada por 1,75 mil milhões de prompts anuais, sugere que o mercado nacional já ultrapassou a fase de adoção por nichos tecnológicos. A média de 33,9 interações por cidadão por ano, embora distante de mercados mais maduros, aponta para um padrão estável e repetido.
Há um segundo indicador particularmente relevante para decisores empresariais. O tempo médio de 5 minutos e 58 segundos por visita, com 3,36 páginas vistas por sessão, mostra que o uso em Portugal não é superficial. Trata-se de uma interação relativamente profunda, compatível com pesquisa, apoio à decisão, criação de conteúdos e tarefas de produtividade.
Do ponto de vista estratégico, a mudança mais significativa poderá estar na evolução do contexto de uso. Os dados mais recentes sugerem que o ChatGPT está a reforçar o seu papel em tarefas pessoais, enquanto ambientes empresariais começam a diversificar fornecedores e casos de uso, recorrendo a soluções concorrentes mais especializadas.
É precisamente aqui que a decisão da OpenAI de retirar a aplicação Sora ganha relevância analítica. O movimento pode ser lido como um foco mais claro em ferramentas empresariais, desenvolvimento assistido por IA e na construção de uma plataforma unificada. Para diretores de TI e responsáveis de compras, este reposicionamento vale mais do que a escala global da base de utilizadores, porque antecipa uma proposta de valor mais orientada à integração, governação e produtividade organizacional.

