China acelera investimento na cloud soberana e amplia fosso global

O investimento chinês em infraestrutura como serviço de cloud soberana deverá atingir 47,3 mil milhões de dólares em 2026, mais do dobro do previsto para a Estados Unidos. A projeção do Gartner aponta para um mercado global de 80,4 mil milhões de dólares este ano, impulsionado por tensões geopolíticas e por políticas de soberania digital cada vez mais exigentes.
20 de Fevereiro, 2026

A China deverá concentrar a maior fatia do investimento mundial em infraestrutura como serviço (IaaS) de cloud soberana já em 2026. Segundo o Gartner, o país deverá gastar 47,3 mil milhões de dólares nesse ano, valor que representa cerca de 59% do mercado global previsto. Para efeitos de comparação, os Estados Unidos deverão ficar pelos 16,3 mil milhões de dólares no mesmo período.

No total, o mercado global de IaaS de cloud soberana deverá alcançar 80,4 mil milhões de dólares em 2026, o que corresponde a um crescimento de 35,6% face aos 59,3 mil milhões estimados para 2025. Em 2027, a previsão aponta para um volume mundial de 110,6 mil milhões de dólares, sinal de que a trajetória de expansão deverá manter-se.

A consultora enquadra esta evolução no contexto de um ambiente internacional marcado por tensões geopolíticas e por políticas públicas orientadas para a soberania digital. Em termos práticos, a cloud soberana refere-se a infraestruturas e serviços cloud que garantem que os dados e as operações digitais permanecem sob jurisdição e controlo de um determinado país, respondendo a requisitos legais, regulatórios e estratégicos.

De acordo com o Gartner, à medida que aumenta a pressão geopolítica, organizações fora dos Estados Unidos e da China estão a reforçar o investimento em IaaS de cloud soberana para assegurar maior independência tecnológica e manter a geração de riqueza dentro das suas fronteiras. Os governos deverão continuar a ser os principais compradores destes serviços, seguidos por setores fortemente regulados e por operadores de infraestruturas críticas, como energia, utilities e telecomunicações.

Crescimento regional e reequilíbrio do mercado

Apesar da liderança chinesa em volume absoluto, o crescimento percentual mais expressivo em 2026 deverá registar-se noutras geografias. O Médio Oriente e Norte de África deverão crescer 89%, a Ásia-Pacífico desenvolvida 87% e a Europa 83%.

Na Europa, o mercado deverá atingir 12,5 mil milhões de dólares em 2026 e 23,1 mil milhões em 2027, ano em que poderá ultrapassar a Estados Unidos, cuja previsão aponta para 21,1 mil milhões. Este movimento sugere um reforço das políticas europeias de autonomia digital e de retenção de dados em território próprio.

Outra tendência destacada pela consultora prende-se com a redistribuição das cargas de trabalho. O Gartner estima que 20% das cargas atualmente alojadas em fornecedores globais de cloud sejam transferidas para operadores locais no âmbito de projetos de cloud soberana. Esta migração poderá alterar o equilíbrio competitivo, sobretudo em mercados como o europeu, onde a regulação de dados é mais restritiva.

Além disso, 80% da despesa em IaaS soberana deverá resultar de novas soluções digitais ou da migração de sistemas legados que ainda aguardam transição para a cloud. Isto significa que a expansão não se limita à substituição de fornecedores, mas inclui também a modernização de aplicações e infraestruturas existentes.

Para os grandes operadores internacionais de cloud, a soberania digital deixou de ser apenas uma questão de conformidade e segurança técnica. As exigências variam de país para país e passam por requisitos legais, controlo operacional e localização de dados. Num contexto em que os decisores de TI são chamados a equilibrar inovação com risco regulatório, a escolha do parceiro cloud poderá tornar-se cada vez mais estratégica.