Ciberameaças aceleram num contexto global de risco interligado

Relatório da NTT DATA mostra que a convergência entre conflitos geopolíticos, eventos climáticos extremos e ciberataques a infraestruturas críticas está a criar um ecossistema de ameaças mais dinâmico e imprevisível, pressionando empresas e governos a reforçar as suas estratégias de defesa digital.
15 de Outubro, 2025
Imagem gerada por IA

O “Relatório de Tendências e Ciberameaças – 1º semestre de 2025”, elaborado pelo departamento de Cyber Threat Intelligence da NTT DATA, aponta para uma intensificação sem precedentes na evolução das ameaças cibernéticas. A crescente sofisticação dos grupos de ransomware, o uso ofensivo de inteligência artificial e a padronização dos acessos iniciais a sistemas empresariais estão a transformar o panorama da cibersegurança mundial.

O documento revela que o atual contexto global é caracterizado pela convergência de múltiplos fatores de risco — instabilidade geopolítica, alterações climáticas extremas e ataques cibernéticos — que se interligam e amplificam mutuamente os seus impactos. Este cenário coloca uma pressão acrescida sobre as infraestruturas críticas, que se tornaram o principal alvo das operações criminosas digitais.

De acordo com o relatório, as interrupções operacionais são hoje o principal impacto negativo sentido pelas organizações, seguidas do aumento dos investimentos em deteção e resposta a incidentes e do pagamento de resgates em ataques de ransomware. Este ambiente tem contribuído diretamente para a escalada do custo global do cibercrime, que atingiu os 10,5 biliões de dólares anuais em 2025, segundo estimativas da Cybersecurity Ventures, podendo chegar aos 15 biliões até ao final do ano se a tendência se mantiver.

A utilização de inteligência artificial está a alterar profundamente o modus operandi das campanhas de ataque. A tecnologia tem sido explorada para desenvolver campanhas de engenharia social mais convincentes, criar identidades falsas e gerar deepfakes e desinformação com objetivos eleitorais ou económicos. A automação de ataques e a criação acelerada de scripts maliciosos reduzem as barreiras à entrada para agentes com pouca experiência técnica, alargando o espetro de ameaças.

O relatório observa ainda uma redução de 8% na variabilidade de impacto entre setores, o que demonstra que todos os segmentos empresariais estão expostos. A administração pública continua a ser o setor mais visado, seguida da educação, das finanças e dos serviços de tecnologias de informação.

Profissionalização e novos modelos do cibercrime

Este relatório identifica ainda um nível de profissionalização sem precedentes entre os grupos criminosos digitais. Os Initial Access Brokers — intermediários que vendem acessos a redes empresariais — aumentaram a sua atividade em 15%, enquanto os ataques de ransomware cresceram 32% no primeiro semestre de 2025. O modelo ransomware-as-a-service consolidou-se como prática dominante, permitindo que diferentes grupos partilhem infraestruturas e reutilizem ferramentas desenvolvidas por organizações já desarticuladas.

A dark web também passou por uma profunda reconfiguração após a queda do BreachForums em abril de 2025, levando à descentralização dos mercados de dados roubados e de ferramentas de hacking. Em paralelo, o modelo crime-as-a-service está em plena expansão, com plataformas clandestinas que disponibilizam ataques DDoS, spam e campanhas de fraude via interfaces SaaS, muitas vezes com suporte técnico e segmentação geográfica. Este fenómeno tem “democratizado” o cibercrime, permitindo que até utilizadores inexperientes lancem ataques sofisticados.

Entre as novas ferramentas utilizadas por agentes maliciosos destacam-se o FraudGPT e o WormGPT, que automatizam campanhas de spear phishing, e os sistemas de clonagem de voz e vídeo, que conseguem contornar mecanismos tradicionais de verificação de identidade. O modelo malware-as-a-service também se fortalece, com milhões de credenciais comprometidas diariamente.

Segundo María Pilar Torres Bruna, responsável pela área de Cibersegurança da NTT DATA para a Ibéria, Organizações Internacionais, América Latina e Consultoria no Benelux e França, a proteção já não pode ser reativa. As empresas devem adotar uma postura proativa, baseada em recolha de informação sobre ameaças, deteção precoce e colaboração internacional, complementadas por uma cultura institucional de cibersegurança sólida e contínua.

O relatório, que visa orientar decisores empresariais e governamentais, reforça que a cooperação e a resiliência organizacional são hoje fatores essenciais para enfrentar um ambiente de risco cada vez mais interdependente e imprevisível.

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