A Divisão Cibernética do FBI dos Estados Unidos alertou, através de dois comunicados (aqui o primeiro e o segundo), para uma mudança no modus operandi do grupo de cibercriminosos Silent Ransom Group (SRG) que, embora opere nos Estados Unidos, longe de não afetar as organizações daqui, é bom conhecer o assunto porque é possível que um caso semelhante venha a ocorrer na Europa.
Nas suas origens, o SRG tornou-se conhecido por uma técnica denominada callback phishing ou phishing de retorno de chamada, uma variante da fraude eletrónica que combina o e-mail com o telefone. O procedimento começava com o envio de mensagens fraudulentas nas quais os atacantes se faziam passar por empresas conhecidas que comercializam serviços de assinatura. Esses e-mails notificavam a cobrança de pequenas quantias, montantes reduzidos escolhidos deliberadamente para não levantar suspeitas.
Para cancelar a suposta assinatura, a vítima era instruída a ligar para os criminosos, que, em seguida, enviavam um link que baixava um programa de acesso remoto, ou seja, uma aplicação que permite controlar um computador à distância. Com esse software instalado, os atacantes obtinham acesso permanente ao sistema, localizavam as informações de valor e, uma vez subtraídas, enviavam uma nota de resgate ameaçando divulgar os dados caso o montante exigido não fosse pago.
O grupo especializou-se em atacar escritórios de advogados sediados nos Estados Unidos, uma vez que as informações que estas organizações manejam são de natureza especialmente sensível, e apesar de a organização ter causado vítimas noutros setores, como o da saúde, o dos seguros e o financeiro.
Mas a última e relevante mudança na sua atividade criminosa começou a ser detetada em abril do ano passado, 2025, tornando-se mais evidente ao longo desta primavera de 2026: os atacantes passaram a fazer-se passar por funcionários do próprio departamento de informática da empresa atacada que, através de chamadas diretas ou e-mails de phishing, incentivam os trabalhadores a contactar por telefone o suposto serviço de suporte. Durante essa conversa, o criminoso tenta que o funcionário lhe conceda acesso a uma sessão de ambiente de trabalho remoto, ou seja, o controlo do seu computador a partir de outro equipamento.
Quando essa via falha, o grupo recorre a um método pouco habitual neste tipo de crimes: envia uma pessoa fisicamente às instalações da vítima, que, apresentando-se como técnico, explica que precisa de fazer uma cópia ou uma imagem do equipamento para resolver as consequências do e-mail fraudulento, e aproveita a ocasião para introduzir um dispositivo de armazenamento no computador e copiar a informação. Uma vez dentro do computador, os atacantes apenas ampliam as suas permissões de acesso e dirigem-se rapidamente à extração de dados.
Ao contrário do ransomware convencional, o SRG não encripta os ficheiros da vítima, limitando-se a roubá-los para depois a extorquir com a sua publicação ou venda. Para extrair a informação, utilizam ferramentas legítimas de transferência de ficheiros como o WinSCP ou uma versão oculta ou renomeada do Rclone e, por vezes, transferem-na para plataformas de armazenamento na nuvem como o Google Drive ou o Microsoft OneDrive. Nas intrusões presenciais, os dados acabam num disco rígido externo ou numa pen USB ligada pelo próprio intruso.
A fase de extorsão concretiza-se através de um e-mail em que se ameaça vender ou divulgar o material subtraído. Os criminosos também telefonam a funcionários e clientes da entidade afetada para forçar o início das negociações do resgate. O grupo dispõe de um site público, denominado business-data-leaks[.]com, no qual chega a publicar as informações das vítimas, embora nas primeiras observações se tenha constatado uma utilização irregular dessa plataforma.
Porque é difícil de detetar
A principal dificuldade em travar estas campanhas reside no facto de deixarem muito poucos vestígios nos equipamentos comprometidos e de os programas antivírus tradicionais terem poucas possibilidades de as detetar, uma vez que o SRG utiliza ferramentas legítimas de administração e acesso remoto. Por esse motivo, as autoridades sublinham que a utilização dessas aplicações não deve ser interpretada como maliciosa sem provas que o comprovem.
Entre os sinais que podem indicar uma intrusão contam-se as transferências não autorizadas de utilitários de gestão ou acesso remoto, como o Zoho Assist, Quick Assist, AnyDesk, RustDesk, Syncro, Splashtop ou Atera; a instalação não autorizada de discos rígidos externos ou pen drives; a saída de dados para o OneDrive, Google Drive ou servidores externos; as ligações do WinSCP ou Rclone a um endereço de Internet externo à empresa; os alertas de extração de informação; a presença de pessoas não identificadas que afirmam ser do suporte informático; e as chamadas, e-mails ou mensagens de voz, dirigidas tanto a funcionários como a clientes, nas quais um grupo anónimo afirma ter roubado dados.
No plano da prevenção, o FBI aconselha a verificação da identidade de todas as pessoas que acedem às instalações, incluindo a obtenção de uma cópia do documento de identificação de cada visitante, bem como a limitação do acesso a informações sensíveis a partir de redes pouco seguras, como as domésticas ou públicas.
Da mesma forma, recomenda estabelecer e comunicar protocolos claros sobre como o pessoal de informática se identificará perante os funcionários, formar o pessoal na deteção de phishing, manter cópias de segurança periódicas e exigir autenticação multifator resistente à suplantacão, um sistema que requer mais do que uma prova para validar a identidade de um utilizador.
Como medidas técnicas adicionais, propõe bloquear a porta 22 (utilizada para o acesso remoto encriptado e a transferência de ficheiros) e desativar o acesso remoto e a ligação de unidades externas nos computadores que tratam de dados confidenciais. Nos Estados Unidos, o FBI solicita às organizações afetadas as informações que possam partilhar legalmente, entre as quais cópias das notas de resgate, os números de telefone e contas de e-mail utilizados, as transcrições das comunicações, as mensagens ou e-mails iniciais da fraude, os dados das carteiras de criptomoedas e os elementos que permitam identificar quem se apresenta como técnico, incluindo gravações das câmaras de segurança.
É importante ter em conta este tipo de ataques que incluem a presença física dos cibercriminosos, uma vez que a tendência pode chegar ao velho continente à medida que se espalha também pela Internet.

