Portugal registou 2.326.234 ciberameaças transmitidas pela Internet entre janeiro e março de 2026, de acordo com o Kaspersky Security Bulletin. No mesmo período, 17,5% dos utilizadores no país foram afetados por ameaças web, um indicador que coloca Portugal na 37.ª posição mundial nesta categoria.
O número, por si só, mostra apenas uma parte do problema. A leitura mais relevante está no tipo de exposição. Os ataques através do browser continuam a assumir um peso central, o que significa que a navegação quotidiana permanece uma das portas de entrada mais usadas pelos atacantes. Para empresas, isto torna a segurança do posto de trabalho num tema menos periférico do que muitas vezes parece. O risco não está apenas em grandes operações dirigidas a infraestruturas críticas, mas também em interações aparentemente banais entre utilizadores, páginas web, aplicações e ficheiros descarregados.
Os dados foram recolhidos através da Kaspersky Security Network, uma infraestrutura distribuída que processa de forma anónima informação enviada por milhões de participantes voluntários em todo o mundo. A partir dessa base, o relatório identifica duas grandes frentes de exposição em Portugal: as ameaças online e os incidentes locais.
No primeiro grupo, destacam-se os ataques que exploram vulnerabilidades em browsers e nos respetivos plugins. Este método, conhecido como drive-by download, pode permitir a infeção de um sistema através do simples acesso a uma página comprometida. A engenharia social mantém também um papel relevante, levando os utilizadores a descarregar ficheiros maliciosos apresentados como programas legítimos. A fragilidade humana continua, assim, a cruzar-se com a fragilidade técnica.
A evolução mais preocupante surge, porém, nas ameaças que procuram passar despercebidas. O malware sem ficheiro, ou fileless malware, recorre a mecanismos como subscrições de registo ou WMI para manter presença no sistema sem deixar objetos tradicionais em disco. Na prática, isto dificulta a análise estática e reduz a eficácia de modelos de defesa demasiado dependentes da identificação de ficheiros suspeitos.
A emergência deste tipo de ameaça reforça a necessidade de segurança baseada em comportamento, e não apenas em assinaturas ou ficheiros conhecidos. A resposta passa por tecnologias como deteção comportamental, modelos de aprendizagem automática, heurísticas e sistemas de prevenção de exploits, capazes de identificar ações suspeitas e bloquear tentativas de exploração de vulnerabilidades em tempo real.
Mas o retrato português não se esgota nos ataques mais sofisticados. Entre janeiro e março, foram também registados 3.999.719 incidentes locais, que afetaram 17,9% dos utilizadores em Portugal. Estes casos estão sobretudo associados a meios físicos, como unidades USB, CDs ou DVDs, e mostram que os vetores tradicionais continuam longe de desaparecer.
Esta persistência é relevante para as organizações porque expõe uma realidade menos glamorosa, mas decisiva: muitas infeções continuam a circular por vias conhecidas há anos. Worms e vírus de ficheiro representam a maioria destes incidentes, o que torna indispensável uma proteção que vá além do antivírus convencional. Firewall, funcionalidades anti-rootkit e controlo de dispositivos amovíveis continuam a fazer parte da base operacional da segurança.
A comparação internacional ajuda a colocar os dados em perspetiva. No caso das ameaças locais, o Turquemenistão foi o país mais afetado a nível mundial, com 56,6% dos utilizadores atingidos. Portugal está longe desse valor, mas os quase quatro milhões de incidentes locais registados no trimestre mostram que a exposição existe e tem escala suficiente para não ser tratada como residual.
A principal conclusão é que a cibersegurança em Portugal enfrenta uma dupla pressão: ataques online mais furtivos e métodos clássicos de propagação que continuam ativos. Para os decisores tecnológicos, isto reduz o espaço para abordagens fragmentadas. A proteção eficaz depende cada vez mais de uma arquitetura multicamada, capaz de combinar prevenção de exploits, deteção comportamental e controlo rigoroso sobre os dispositivos que entram em contacto com os sistemas.
O primeiro trimestre de 2026 confirma, assim, que o desafio não está apenas em acompanhar a sofisticação dos atacantes. Está também em não perder de vista os fundamentos. Num ambiente em que a ameaça pode chegar por uma vulnerabilidade no browser ou por uma simples unidade USB, a maturidade de segurança mede-se pela capacidade de tratar ambos os riscos com a mesma disciplina.







