Usar um smartphone significa, na prática, saltar entre aplicações. Abrir uma para enviar uma mensagem, outra para pagar uma conta, outra para reservar uma viagem. A nova geração de telemóveis com inteligência artificial ativa, atualmente em desenvolvimento na China, procura simplificar este processo.
A ideia é colocar a IA no centro do sistema operativo. Em vez de obrigar o utilizador a escolher e abrir cada aplicação, o telefone recebe uma instrução e procura os serviços necessários para a executar.
O utilizador deixa de dizer ao telefone que aplicação quer abrir e passa a dizer-lhe aquilo que pretende fazer.
Parece apenas uma forma mais cómoda de usar o equipamento, mas a mudança é bastante mais profunda. Se a inteligência artificial conseguir escolher aplicações, combinar serviços e executar tarefas em segundo plano, a própria aplicação pode perder importância enquanto principal porta de entrada para o mundo digital.
É precisamente aqui que começa o problema para a Apple e para a Google.
As duas empresas construíram uma parte relevante dos seus negócios móveis em torno das lojas de aplicações. A Apple recebe entre 15% e 30% das receitas geradas através das aplicações distribuídas no seu ecossistema. No caso da Google, estima-se um resultado operacional da Play Store entre 17% e 26%, mas a empresa não confirma esta estimativa.
Uma camada de inteligência artificial capaz de executar serviços sem mostrar as aplicações ao utilizador pode reduzir o peso das lojas digitais, das interfaces próprias de cada serviço e das compras realizadas dentro das aplicações.
A disputa já não é apenas pelo melhor smartphone. É pelo controlo da camada que decide que serviços chegam ao utilizador.
É pouco provável, por isso, que a Apple ou a Google permitam facilmente que agentes externos passem a controlar essa relação. Quem domina a interface também influencia a distribuição das aplicações, os pagamentos e o acesso aos dados.
Os fabricantes chineses têm maior liberdade para experimentar. Como não dependem tanto das receitas geradas por uma loja global de aplicações, enfrentam menos resistência económica à substituição do modelo tradicional.
Na China, os serviços da Google já estão ausentes da generalidade dos equipamentos comercializados. O passo seguinte pode ser a substituição gradual das próprias aplicações por agentes ligados a fabricantes e a empresas responsáveis por superaplicações.
Esta mudança começa a refletir-se no consumo. As compras dentro de aplicações móveis terão recuado cerca de 40% até ao início de 2026, apesar de os utilizadores estarem a gastar mais do que em anos anteriores. Uma possível explicação está no crescimento das subscrições de serviços de IA, que concentram várias funcionalidades num único pagamento recorrente.
O valor pode, assim, começar a deslocar-se. Menos compras dentro de aplicações e mais pagamentos por sistemas capazes de acompanhar o utilizador em diferentes tarefas. Mas esta transformação não acontece apenas no software. Alguns fabricantes chineses estão também a explorar equipamentos em que a inteligência artificial controla partes móveis do próprio telefone.
O Honor Robot Phone, apresentado no Mobile World Congress 2026, é um dos exemplos. O conceito combina IA, perceção do ambiente e um sistema mecânico capaz de mover a câmara em tempo real.
O equipamento utiliza um micromotor e um gimbal ultracompacto com quatro graus de liberdade. Na prática, pode acompanhar o utilizador durante uma videochamada, ajustar o enquadramento e reagir através de movimentos semelhantes a acenos ou inclinações.
A estabilização em três eixos procura aproximar o funcionamento da câmara ao de um tripé motorizado. O sistema inclui ainda acompanhamento automático de objetos, movimentos rotacionais de 90 e 180 graus e um sensor de 200 megapíxeis.
Não significa que os telemóveis estejam prestes a transformar-se em robôs. Estes modelos continuam a ser raros, mesmo na China. Mas mostram que a diferenciação já não tem de depender apenas do processador, do ecrã ou do número de câmaras.
O próprio corpo do smartphone pode tornar-se programável e responder às decisões tomadas pela inteligência artificial.
Esta abordagem aproxima os equipamentos da chamada “economia do apego”, um modelo em que os produtos tecnológicos recorrem a gestos e comportamentos próximos dos humanos para criar uma relação emocional mais forte com os utilizadores.
É uma ideia comercialmente apelativa, mas levanta questões. Um telefone que observa o ambiente, interpreta sons, acompanha movimentos e reage fisicamente recolhe e processa muito mais contexto do que um equipamento convencional.
Para as empresas, a escolha de um smartphone poderá tornar-se mais complexa. Já não bastará avaliar o sistema operativo, a duração da bateria, a segurança ou as aplicações disponíveis. Será necessário perceber que autonomia têm os agentes, que serviços conseguem utilizar, como tratam os dados e até que ponto prendem a organização ao ecossistema de um fabricante.
Um agente capaz de trabalhar entre várias aplicações pode poupar tempo e reduzir tarefas repetitivas. Mas uma decisão errada, uma permissão excessiva ou uma falha de segurança também pode produzir consequências em vários serviços ao mesmo tempo.
Para os CIO, CISO e responsáveis de compras, o smartphone começa a parecer menos um terminal e mais uma plataforma autónoma de acesso a dados e serviços.
A evolução chinesa pode contribuir para uma divisão mais clara entre dois modelos de mobilidade. De um lado, o sistema ocidental, baseado em aplicações individuais, lojas digitais e plataformas controladas pela Apple e pela Google. Do outro, uma arquitetura assente em agentes, superaplicações e integração direta entre software, serviços e componentes físicos.
Caso estes equipamentos conquistem o mercado chinês, os fabricantes deverão tentar levá-los a outras regiões. A expansão não significará apenas vender telemóveis. Poderá também abrir espaço a serviços financeiros, plataformas de informação e superaplicações desenvolvidas por empresas chinesas.
Os próximos dispositivos vestíveis deverão tornar esta disputa ainda mais relevante. Óculos e relógios com IA continuarão a depender dos smartphones para aceder à rede, processar informação e estabelecer ligação a modelos de inteligência artificial.
Nesse cenário, o telefone passará a ser o centro invisível de um conjunto de dispositivos que comunicam com o utilizador. Os agentes e modelos escolhidos determinarão que informação é apresentada, que serviços são utilizados e que decisões são automatizadas.
A compra de um smartphone deixará, por isso, de ser apenas uma escolha entre marcas ou especificações. Será também uma escolha sobre quem controla a inteligência artificial que medeia uma parte crescente da vida digital.







