Construção civil acelera na curva digital, mas o maior desafio continua a ser a coordenação

No novo episódio do Coffee Break do Digital Inside, João Miguel Mesquita conversa com Jaime Quintas, diretor-geral da Alphalink, sobre a lenta, mas inevitável, transformação digital de um dos setores mais pesados da economia portuguesa.
14 de Abril, 2026

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A construção civil continua a ser um dos pilares da economia nacional, representando entre 12% e 15% do PIB e empregando perto de 400 mil pessoas em Portugal. É também um setor fortemente internacionalizado, com empresas portuguesas presentes em múltiplos mercados. Ainda assim, quando o tema é digitalização, a realidade está longe da maturidade que já se observa noutras indústrias.

É este o ponto de partida da conversa entre João Miguel Mesquita e Jaime Quintas, diretor-geral da Alphalink, no mais recente episódio do Coffee Break do Digital Inside, a transformação digital na construção não esbarra tanto na falta de tecnologia, mas sobretudo na complexidade estrutural do próprio setor.

Ao contrário da indústria automóvel, onde uma entidade central controla o processo do início ao fim, a construção vive de uma cadeia de valor profundamente desagregada. Arquitetos, gabinetes de engenharia, empreiteiros, subempreiteiros e equipas de obra operam frequentemente em silos, cada um a otimizar a sua parte, sem uma visão verdadeiramente integrada do projeto.

Para Jaime Quintas, este continua a ser o principal bloqueio à modernização: o setor inovou muito em materiais, técnicas e engenharia, mas nem sempre conseguiu “pensar sobre si próprio” enquanto processo global.

O resultado está à vista. Falhas de comunicação entre especialidades, retrabalho, derrapagens de custo e atrasos continuam a ser sintomas de uma cadeia que ainda não fala uma linguagem comum.

Se o AutoCAD marcou uma primeira grande vaga de digitalização no desenho técnico, o BIM (Building Information Modeling) está a assumir-se como a transformação mais profunda da atualidade.

Mais do que software, o BIM é uma metodologia de trabalho colaborativa. Na prática, cria um modelo digital tridimensional do edifício, onde se concentram informação de arquitetura, estruturas, especialidades, planeamento e custos.

Para os decisores tecnológicos, o ponto crítico é este: o valor do BIM não está apenas na visualização 3D, mas na sua capacidade de servir como camada única de dados para todo o ciclo de vida do projeto.

Quando bem implementado, permite reduzir conflitos entre especialidades ainda na fase de projeto, antecipar custos, gerir cronogramas e prolongar a utilidade do modelo para operação e manutenção do ativo.

Uma das ideias mais interessantes do episódio é a desconstrução do mito de que a tecnologia termina no gabinete técnico.

Segundo Jaime Quintas, já é cada vez mais comum encontrar equipas em obra a trabalhar com tablets e iPads, acedendo diretamente aos modelos digitais, plantas atualizadas e instruções tridimensionais no terreno.

A evolução para o chamado 4D BIM acrescenta uma nova dimensão: o tempo. Ao modelo 3D junta-se o planeamento da execução e a gestão de custos, criando uma visão operacional que interessa diretamente a gestores de projeto, diretores de obra e responsáveis de procurement tecnológico.

A realidade aumentada começa também a ganhar espaço, sobretudo na validação de instalações e na deteção de conflitos antes da execução física.

O verdadeiro problema não é tecnologia. São dados e pessoas

O episódio deixa claro que o maior desafio da construção não é a disponibilidade de ferramentas, mas a governação dos dados entre entidades com níveis muito diferentes de maturidade digital.

No mesmo projeto coexistem gabinetes altamente sofisticados, PME especializadas e equipas de terreno com práticas muito distintas. Integrar informação produzida por perfis tão diversos, dos criativos da arquitetura aos técnicos das instalações, é um problema de interoperabilidade, processos e cultura.

Para um público de decisores de compras tecnológicas, a leitura é evidente: a escolha da plataforma é apenas uma parte do problema. O fator decisivo está na capacidade de garantir adoção transversal, integração entre parceiros e modelos de dados consistentes.

Apesar do entusiasmo em torno de robótica e automação, Jaime Quintas traça uma linha realista. Na reabilitação urbana, dominante em centros como Lisboa e Porto, a obra continua a exigir elevada destreza manual, o que limita a adoção de robôs em larga escala.

A automação tem hoje maior expressão em tarefas repetitivas e altamente padronizadas, como a colocação de pavimentos em grandes superfícies.

Em novas construções, a equação mantém-se pragmática: 99% da transformação está na gestão e apenas 1% na automação física.

É neste contexto que a Alphalink posiciona a sua proposta de valor.

A empresa especializa-se em garantir que o BIM não é apenas adquirido como ferramenta, mas implementado como linguagem comum entre todos os intervenientes do projeto. Isso inclui a contratação de gestores BIM, a seleção de plataformas digitais, a definição de processos e a extensão da metodologia até ao estaleiro.

Para muitos clientes, explica Jaime Quintas, o BIM ainda surge como um sobrecusto na fase de projeto. O trabalho da Alphalink passa precisamente por demonstrar que esse investimento inicial reduz risco, retrabalho e custo total ao longo da obra.

A construção está ainda na base da curva de adoção tecnológica, mas a mudança já é irreversível. E, para quem decide investimentos em tecnologia, o diferencial competitivo deixará de estar na simples compra de software para passar a residir na capacidade de orquestrar ecossistemas de dados, parceiros e processos numa indústria estruturalmente fragmentada.

Num setor onde cada erro em projeto se multiplica em custo real no terreno, falar a mesma linguagem digital deixou de ser inovação. Está a tornar-se requisito de competitividade.

Opinião