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Para António Coutinho, há uma constante que atravessa todas as tendências tecnológicas: a dependência crescente das empresas em relação aos sistemas de informação. “Hoje, praticamente tudo depende do IT funcionar bem. Isso aumenta a exposição a ataques, a falhas técnicas e até a eventos inesperados, como apagões”, afirma.
Nos últimos anos, essa realidade tem levado as organizações a reforçar duas dimensões críticas: segurança e capacidade de recuperação. “Não se trata apenas de evitar incidentes, mas de garantir que, quando algo acontece, a empresa consegue recuperar rapidamente e continuar a operar”, explica. É aqui que a Eurotux procura posicionar-se como parceiro de longo prazo, ajudando os clientes a tornarem-se mais resilientes.
A pandemia e o período que se seguiu aceleraram decisões que, noutro contexto, poderiam ter levado uma década. O CEO da Eurotux reconhece esse movimento, mas sublinha que a empresa nunca seguiu uma lógica de “empurrar tecnologia”.
Esta abordagem, diz, tem sido valorizada num mercado onde muitas empresas ainda estão a consolidar transformações recentes, ao mesmo tempo que enfrentam novas pressões económicas e regulatórias.
A inteligência artificial é hoje um tema incontornável nas conversas dos CIO, CISO e administradores de sistemas. Para António Coutinho, a IA está num ponto curioso: “Não pode ser ignorada, mas ainda ninguém a sabe usar completamente.”
O foco atual está sobretudo na IA generativa, baseada em grandes modelos de linguagem. Impressiona, mas traz riscos. “São motores probabilísticos, não motores de certezas. Podem errar, inventar respostas, e isso é um problema sério em contexto corporativo”, alerta, recordando casos reais em que respostas erradas tiveram consequências legais.
Na Eurotux, a abordagem passa por ajudar os clientes a experimentar de forma controlada. “Temos vários projetos de proof-of-concept, sempre com uma preocupação central: o controlo dos dados.” Em vez de enviar informação sensível para plataformas externas sem garantias, a empresa procura soluções que respeitem requisitos de segurança, privacidade e soberania dos dados.
Questionado sobre as primeiras áreas onde a IA seduz os gestores de tecnologia, António Coutinho é pragmático. “Seduz em quase tudo, mas é preciso estudo.” Exemplos simples já estão a ser aplicados, como apoio à comunicação com clientes, sugestões automáticas de texto ou tradução para várias línguas.
Outras utilizações, mais avançadas, passam pela análise de dados internos e pela criação de modelos enriquecidos com informação histórica das próprias empresas. “Mas nada disto funciona sem dados de qualidade”, sublinha.
Antes de qualquer projeto de IA, há um trabalho pesado e muitas vezes subestimado: organizar, registar e preservar dados. “As empresas já têm muitos dados, mas nem sempre os guardam de forma estruturada ou pensam neles como ativos para o futuro.”
Registar problemas, soluções e resultados, caso a caso, cria a base para treinar sistemas inteligentes. “Sem histórico, não há inteligência artificial que funcione”, resume.
Sobre a digitalização do Estado português, o CEO da Eurotux mostra uma posição pouco comum: prefere menos pressa e mais rigor. “Quando se fala de dinheiro dos contribuintes, prefiro que demore mais tempo e seja bem feito, em vez de correr atrás da última moda.”
No plano internacional, a Eurotux tem apostado no Reino Unido, com aquisições e operação focada em Londres e no sul de Inglaterra. A vantagem competitiva? “Portugal tem uma enorme capacidade em línguas, sobretudo inglês, e isso permite-nos servir mercados internacionais com mais facilidade.”
Quanto às PME, que dominam o tecido empresarial português e europeu, António Coutinho reconhece limitações de escala, mas também aponta vantagens. “São mais flexíveis, reinventam-se mais depressa e, muitas vezes, evitam erros caros.” É nesse equilíbrio entre ambição e prudência que a Eurotux procura apoiar os seus clientes.
A cloud continua a gerar debates. Depois de anos de resistência, muitas empresas migraram, mas surgem agora novas dúvidas. “Nunca fomos 100% apologistas da cloud”, afirma o CEO. Questões de soberania, dependência de fornecedores e aumentos de preços recentes mostram que o modelo não é sempre o mais económico a longo prazo.
“A utilização inicial pode ser barata, mas clientes com uso intensivo acabam, muitas vezes, a pagar mais do que pagariam com infraestrutura on-premises”, explica. Por isso, a Eurotux defende uma abordagem híbrida e equilibrada, adaptada a cada caso.
Apagões, falhas de rede, ataques ou simples avarias lembram que o inesperado acontece. “Nesse apagão recente, conseguimos manter a operação e as comunicações na nossa sede. Nem tudo correu perfeitamente, mas aprendemos lições importantes”, refere.
Robustez, continuidade e gestão de risco não são temas teóricos. São decisões práticas que afetam diretamente o negócio. E é aqui que, segundo António Coutinho, um parceiro tecnológico deve provar o seu valor.






