Copilot tenta ganhar espaço nas empresas com agentes que trabalham em segundo plano

Com a introdução do Copilot Cowork, a Microsoft procura reforçar o papel do seu assistente de inteligência artificial no ambiente empresarial. A nova geração de agentes promete executar tarefas de forma autónoma dentro do Microsoft 365, mas surge num momento em que a adoção paga do Copilot continua abaixo das expectativas e em que as empresas ainda avaliam os riscos e benefícios desta tecnologia.
9 de Março, 2026

A Microsoft apresentou novas capacidades de inteligência artificial de tipo “agentic” para o Microsoft 365 Copilot, numa tentativa de tornar o assistente mais útil no contexto de trabalho. O elemento central deste anúncio é o Copilot Cowork, um agente concebido para executar tarefas de forma autónoma dentro do Microsoft 365, mesmo quando o utilizador está ocupado com outras atividades.

A lógica é simples: em vez de responder apenas a perguntas ou comandos pontuais, como acontece com um chatbot tradicional, o agente passa a assumir tarefas completas. Estes agentes podem trabalhar em segundo plano em várias aplicações do Microsoft 365, permitindo que processos continuem a decorrer enquanto o utilizador se dedica a outras tarefas. Entre os exemplos apontados estão a preparação de conteúdos, a organização de informação ou a execução de processos mais demorados dentro das ferramentas de produtividade.

Este movimento surge num contexto particular para a Microsoft. Apesar da forte visibilidade do Copilot desde o lançamento, a adesão ao serviço pago permanece relativamente limitada. Apenas cerca de 3% dos utilizadores do Microsoft 365 subscrevem atualmente a versão paga do Copilot, o que corresponde a cerca de 15 milhões de licenças. Tendo em conta a dimensão da base instalada do Microsoft 365 no mercado empresarial, o número indica que a adoção ainda se encontra numa fase inicial.

O conceito do Copilot Cowork segue uma linha semelhante à proposta apresentada pela Anthropic com o Claude Cowork. Ambos se enquadram na nova categoria de agentes de inteligência artificial, sistemas que deixam de funcionar apenas como interfaces de conversação e passam a assumir a execução de tarefas mais complexas.

No caso da Microsoft, a estratégia assenta sobretudo na integração direta com as ferramentas já utilizadas nas organizações. A empresa pretende incorporar estas capacidades nas aplicações do Microsoft 365 utilizadas diariamente nas empresas, como Word, Excel, Outlook ou Teams. Esta proximidade com o ambiente de trabalho corporativo é um dos elementos centrais da proposta da empresa.

Ainda assim, existem algumas limitações. Analistas da Gartner referem que o agente da Microsoft não consegue aceder diretamente ao computador local nem interagir com ficheiros ou aplicações fora do ambiente Microsoft 365. Na prática, isto significa que o Copilot Cowork fica limitado ao ecossistema da Microsoft e não pode executar tarefas completas que envolvam aplicações de terceiros. Para muitas organizações, onde os fluxos de trabalho atravessam várias plataformas e sistemas, esta limitação poderá ter impacto na utilidade real do agente.

A evolução para agentes de inteligência artificial mais autónomos levanta também novas questões no contexto empresarial. A capacidade de um sistema aceder a dados, tomar decisões e executar tarefas automaticamente exige mecanismos claros de governação e controlo.

No caso do Copilot, o acesso ao Microsoft 365 significa que o agente pode potencialmente interagir com um volume significativo de informação corporativa armazenada na cloud. A promessa de ganhos de produtividade existe, mas a sua concretização dependerá da forma como estas ferramentas lidam com dados empresariais e com os mecanismos de segurança exigidos pelas organizações.

Alguns especialistas recordam que mesmo os fornecedores de modelos de inteligência artificial recomendam cautela quando estão em causa dados sensíveis. O debate sobre privacidade, controlo e auditoria de decisões automatizadas tende a tornar-se ainda mais relevante à medida que estes agentes ganham autonomia operacional.

Outro fator que pesa na adoção tem sido a perceção dos próprios utilizadores. Alguns responsáveis de TI referem que, apesar de o Copilot recorrer a modelos desenvolvidos pela OpenAI, o desempenho observado dentro do Microsoft 365 nem sempre corresponde às expectativas criadas pela experiência com ferramentas como o ChatGPT ou o ChatGPT Enterprise.

Esta diferença entre expectativas e resultados percebidos tem contribuído para uma certa prudência por parte das organizações, que continuam a testar estas ferramentas antes de uma adoção mais alargada. Em muitos casos, os projetos permanecem em fase experimental ou surgem em iniciativas piloto dentro de departamentos específicos.

A Microsoft procura também reforçar a sua proposta comercial para o mercado empresarial. A empresa prepara o lançamento de um novo plano designado E7, que ficará acima do atual E5 como a oferta mais completa para organizações. A empresa indica que o novo pacote poderá representar poupança quando comparado com a aquisição individual de várias ferramentas incluídas no serviço.

Contudo, os detalhes concretos ainda não são totalmente claros. Existem indicações de que o modelo poderá introduzir elementos de preço baseados no consumo, mas a Microsoft ainda não confirmou a estrutura final da oferta.

No terreno, a adoção de agentes de inteligência artificial continua a avançar de forma gradual. Muitas organizações encontram-se ainda numa fase de experimentação, testando estas tecnologias em projetos piloto ou em iniciativas informais conhecidas como “shadow AI”, fora do controlo direto dos departamentos de TI.

Neste contexto, a definição de políticas de governação, segurança e utilização responsável tornou-se uma prioridade para muitos responsáveis tecnológicos. À medida que os agentes de inteligência artificial começam a assumir tarefas dentro dos sistemas empresariais, a forma como estas ferramentas são controladas e auditadas poderá tornar-se tão importante quanto a própria promessa de produtividade.

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