A ESET alerta que grupos criminosos estão a utilizar deepfakes, currículos falsos e videochamadas manipuladas para entrar em empresas através de processos de contratação remotos. O objetivo, segundo a empresa de cibersegurança, é fazer-se passar por funcionários legítimos e obter acesso direto a redes internas, informações confidenciais e dados financeiros.
Nos últimos meses, foram documentadas mais de 300 tentativas de infiltração em empresas dos Estados Unidos, Europa e Ásia, atribuídas a atores como o WageMole, ligado à Coreia do Norte. De acordo com o FBI e a Microsoft, estas operações têm como objetivo introduzir perfis secretos em organizações tecnológicas para roubar informações ou redirecionar fundos. O caso da empresa norte-americana KnowBe4, onde um candidato teria usado um deepfake numa entrevista para um cargo remoto, ilustra o nível de sofisticação que essas práticas alcançaram.
Os investigadores da ESET descrevem uma evolução da fraude impulsionada por ferramentas de inteligência artificial. Os cibercriminosos criam ou roubam identidades que parecem estar na mesma localização que a empresa-alvo, abrem contas de e-mail, perfis nas redes sociais e presença em plataformas para desenvolvedores, a fim de dar verosimilhança. Durante as entrevistas telemáticas, recorrem a imagens ou vídeos manipulados por IA (deepfakes) e a programas de troca de rosto e voz para ocultar a sua identidade real.
A ESET coloca o WageMole no ambiente do DeceptiveDevelopment, uma campanha norte-coreana voltada para o roubo de informações. Nesse esquema, programadores ocidentais são atraídos para ofertas inexistentes e convidados a completar um desafio técnico ou uma tarefa prévia. O projeto do qual fazem download incorpora código trojan que compromete os seus equipamentos. A partir daí, o WageMole recolhe identidades de programadores para as utilizar em novos fraudes laborais, apoiando-se na abertura de contas em plataformas de trabalho autónomo, na disponibilidade de contas bancárias (próprias ou emprestadas), na compra de números de telefone ou cartões SIM e em serviços de verificação de antecedentes para validar identidades falsas.
Depois de passar na seleção, os operadores instalam o portátil numa “fazenda” localizada no país da empresa contratante e ocultam a sua localização real com VPNs falsas, serviços proxy ou servidores virtuais, o que dificulta a sua deteção. Esta infiltração pode colocar em risco dados, sistemas críticos e os próprios funcionários, chegando mesmo a levantar pedidos de resgate.
Proteger e prevenir
A ESET recomenda partir da premissa de que qualquer entidade pode ser afetada e aplicar medidas em três frentes. Na contratação, convém verificar detalhadamente a coerência do perfil e da experiência alegada, verificar a existência das empresas mencionadas e contactá-las, e prestar atenção a sinais como contas recém-criadas ou incorreções. Durante a entrevista, ajuda verificar se a câmara e o áudio são reais, solicitar a desativação de filtros de fundo e fazer perguntas sobre questões locais ou culturais que testem a autenticidade do candidato.
Na supervisão do pessoal, sugere-se vigiar comportamentos pouco habituais: utilização de números de telefone estrangeiros, downloads de software não autorizado, acessos a partir de endereços IP desconhecidos, transferência invulgar de ficheiros, inícios de sessão fora do horário ou alterações nos padrões de trabalho. Para isso, é fundamental dispor de ferramentas orientadas para detetar e gerir ameaças internas.
Se houver suspeita de um funcionário falso, a ESET propõe agir com discrição: restringir imediatamente o acesso a recursos sensíveis e revisar sua atividade na rede, limitar a investigação às equipes de segurança, recursos humanos e assessoria jurídica, preservar as evidências e notificar o incidente às forças de segurança, além de solicitar apoio jurídico para a organização. A ESET enfatiza que a tecnologia por si só não é suficiente e que a formação e a atenção das equipas continuam a ser determinantes para evitar que a confiança se torne uma porta de entrada para a espionagem.







