Um estudo realizado pelo CQF Institute revela um problema que já ultrapassa a esfera do recrutamento e entra no domínio da gestão tecnológica e do risco. Os dados mostram que 88% dos inquiridos identificam uma lacuna de competências no setor, enquanto 76% consideram que essa diferença entre o talento disponível e o exigido pelas funções se agravou nos últimos três anos.
A origem desta pressão está, em larga medida, na integração da inteligência artificial nos fluxos de trabalho financeiros. À medida que os modelos se tornam mais sofisticados, as funções quantitativas exigem hoje uma combinação mais exigente entre matemática, estatística, programação e aprendizagem automática. O estudo mostra que 58% dos profissionais sentiram um alargamento direto das suas responsabilidades nos últimos dois anos, reflexo de uma maior exposição a tarefas ligadas à modelação estatística, validação de sistemas e desenvolvimento computacional.
A adoção de inteligência artificial deixou de depender apenas da compra de infraestrutura ou software e passou a estar diretamente ligada à capacidade de contratar, formar e reter perfis especializados. Quando essa capacidade falha, a execução tecnológica abranda e a governação dos modelos torna-se mais frágil.
Este estudo antecipa ainda que esta tendência se irá intensificar. Cerca de 74% dos profissionais prevê uma transformação profunda ou total das funções quantitativas nos próximos cinco anos, impulsionada pela inteligência artificial. Este dado reforça a ideia de que o problema não é conjuntural, mas estrutural, moldado por uma evolução tecnológica mais rápida do que a resposta do mercado de talento.
As dificuldades já são visíveis na contratação. Mais de metade dos inquiridos admite que recrutar profissionais quantitativos com preparação sólida continua a ser difícil. O problema não está apenas na escassez de especialistas, mas no perfil híbrido agora exigido: conhecimento quantitativo, capacidade computacional e domínio de técnicas de IA aplicadas ao contexto financeiro. Para quem decide compras e investimento, isto significa que o custo real de um projeto de IA inclui cada vez mais a componente de talento e requalificação.
A formação académica tradicional surge também sob pressão. Segundo o estudo, 75% dos profissionais afirmam que as funções atuais requerem capacidades que nunca lhes foram ensinadas no ensino superior. Esta realidade está a transferir o peso da aprendizagem para a formação contínua, para a experiência prática e para certificações profissionais. A requalificação permanente deixou de ser um complemento e passou a ser uma condição essencial para acompanhar a evolução tecnológica do setor.
Há ainda uma dimensão de risco que merece atenção especial. O estudo indica que 39% dos profissionais consideram que a principal ameaça associada a esta lacuna de competências é a crescente dependência de sistemas automatizados sem supervisão humana suficiente. Para organizações altamente dependentes de modelos, esta conclusão reforça a necessidade de equilibrar automação com controlo técnico e governação.
No essencial, o estudo aponta para uma mudança estrutural no modo como a tecnologia financeira deve ser pensada. O verdadeiro estrangulamento já não está apenas na sofisticação dos sistemas, mas na disponibilidade de pessoas capazes de os compreender, validar e supervisionar.







