Um estudo global revelou que trinta e nove por cento dos inquiridos em Portugal sofreram pelo menos uma forma de abuso tecnológico nos últimos doze meses. Este indicador contrasta com o facto de apenas trinta e dois por cento dos participantes nacionais saberem o significado real deste conceito, ao passo que vinte e seis por cento admitiram nunca ter ouvido falar do termo. A discrepância entre os indivíduos afetados e aqueles que compreendem a ameaça evidencia uma lacuna de sensibilização, o que faz com que muitas destas práticas prejudiciais sejam normalizadas ou ignoradas por não deixarem evidências físicas.
O abuso facilitado pela tecnologia abrange comportamentos prejudiciais praticados ou amplificados por meios digitais, tais como telemóveis, redes sociais ou plataformas online. O fenómeno engloba ações que vão desde o assédio online e exclusão digital até à perseguição digital, usurpação de identidade e monitorização não autorizada. No contexto do mercado português, a ameaça mais frequente prende-se com o bloqueio e exclusão com intenção de causar dano, registando catorze por cento, valor idêntico ao das discussões agressivas em grupos, seguindo-se o envio de mensagens rudes e ofensivas com dez por cento. Em média, cada pessoa afetada em Portugal experienciou 2,3 tipos diferentes de comportamentos abusivos.
A nível internacional, os dados indicam que os respondentes em geografias como os Estados Unidos e a Índia manifestaram maior exposição a múltiplas formas de abuso. Em contrapartida, diversas regiões da Europa e da Ásia demonstraram menor tendência para reconhecer estas experiências. De acordo com a direção do Gender and Tech Research Lab da UCL, a ausência de uma compreensão comum sobre as componentes do abuso tecnológico impede que este seja categorizado como um dano distinto, dificultando a medição do problema, a denúncia, o apoio às vítimas e a formulação de respostas eficazes. Esta temática motivou a organização da International Tech Abuse Conference pela referida instituição, um evento direcionado para a partilha de conhecimento prático focado no combate a estas ameaças.
Paralelamente, as dimensões mais severas deste ecossistema incluem a perseguição digital, que afetou quatro por cento dos portugueses inquiridos, e a recolha e divulgação não autorizada de dados pessoais, conhecida como doxxing, que atingiu cinco por cento dos participantes no país. Especialistas em segurança digital detetaram um ecossistema crescente em fóruns da dark web que comercializa serviços de doxxing com preços que oscilam entre os 50 e os 4.000 dólares.
Estas plataformas disponibilizam também ferramentas avançadas de vigilância capazes de seguir indivíduos e extrair dados confidenciais, conhecidas como stalkerware. Trata-se de programas, aplicações e dispositivos instalados de forma oculta que operam em segundo plano nos dispositivos móveis, permitindo a monitorização remota e invisível de pesquisas online, geolocalização, mensagens, fotografias e chamadas de voz. Os dados de monitorização indicam que mais de trinta e quatro mil utilizadores foram afetados por stalkerware a nível mundial entre 2024 e 2025.
Este volume eleva o total global de afetados para cento e vinte e sete mil utilizadores nos últimos cinco anos, período durante o qual foram identificadas trinta e três novas famílias deste tipo de programa até então desconhecidas. Com vítimas registadas em mais de cento e sessenta países, a Rússia, o Brasil e a Índia posicionaram-se como os territórios mais afetados no decorrer do ano de 2025. Investigadores da equipa global da Kaspersky, autora do estudo, salientam que a facilidade de descarregamento e instalação deste software, associada à sua operação invisível, exige uma maior capacidade de identificação e resposta por parte dos utilizadores face a suspeitas de perseguição digital.







