A Microsoft Portugal avançou com um processo de despedimento coletivo que abrange 68 postos de trabalho, segundo informações avançadas pela agência LUSA. A medida alinha-se com uma reestruturação global mais vasta da tecnológica norte-americana, que ao longo de 2024 já eliminou mais de 16.000 empregos, correspondentes a cerca de 7% do total de colaboradores.
É o segundo corte desta dimensão registado este ano em Portugal e resulta de um plano de transformação interna mais amplo. A operação portuguesa vê suprimidas funções ligadas a várias áreas críticas, incluindo gestão de contas de clientes empresariais, especialistas em soluções cloud e equipas FastTrack, responsáveis por apoiar a adoção de serviços da Microsoft por parte de empresas.
Estas mudanças decorrem em paralelo com a alteração do modelo organizacional da Microsoft na região EMEA (Europa, Médio Oriente e África). Desde junho, Portugal deixou de operar como subsidiária independente e passou a integrar um novo cluster regional, designado “South MCC”, que agrupa mercados como Turquia, Grécia, Chipre, Malta e países dos Balcãs. Este novo modelo de gestão, que visa simplificar estruturas e acelerar decisões, retira autonomia à operação portuguesa, que agora depende da liderança de Charles Calestroupat, responsável pela região do sul da Europa.
Embora a direção da empresa tenha afirmado, aquando da reconfiguração em junho, que a mudança visava reforçar a agilidade e a presença no terreno, não foi, na altura, clarificado o impacto direto em termos de recursos humanos ou investimento. Com os despedimentos agora anunciados, deixam de existir dúvidas quanto às consequências desta nova engenharia organizacional na estrutura portuguesa.
A vaga de cortes em Portugal acompanha os anúncios feitos esta semana a nível global, onde a Microsoft confirmou a eliminação de mais 9.000 postos de trabalho, que se somam aos 8.000 já suprimidos em janeiro e maio. A empresa contava com 228.000 colaboradores no final de junho e pretende, segundo o CEO Satya Nadella, racionalizar operações e concentrar esforços nos segmentos considerados estratégicos, em particular a inteligência artificial (IA).
A aposta na IA tem sido apontada como um fator central na redefinição do modelo de trabalho dentro da empresa. A Microsoft comprometeu-se a investir cerca de 80 mil milhões de dólares em infraestruturas de data centers até ao final do ano fiscal. Um terço do código produzido atualmente já é gerado por ferramentas automatizadas, e esta evolução tecnológica tem impacto direto nas necessidades de capital humano, em particular em funções técnicas.
Dados do estado de Washington indicam que, só em maio, os engenheiros de software representaram 40% dos despedimentos registados, evidenciando a substituição progressiva de funções especializadas por processos automatizados. A transição está igualmente a afetar unidades como a divisão Xbox, que perdeu 2.500 postos, e as áreas de realidade aumentada e cloud, onde foram suprimidos cerca de 1.000 empregos.
Apesar da solidez dos resultados financeiros no primeiro trimestre de 2024, nomeadamente no segmento de cloud computing, a Microsoft prossegue com uma estratégia de redução de estruturas e simplificação hierárquica. O objetivo declarado é manter competitividade num mercado cada vez mais moldado por tecnologias disruptivas.
Este movimento espelha uma tendência transversal entre as Big Tech norte-americanas. A Amazon, por exemplo, eliminou 27.000 postos em 2023 e continua a cortar funções em 2024, nomeadamente na sua unidade AWS. O CEO Andy Jassy tem alertado para a pressão crescente da automação sobre os empregos administrativos e para uma transformação profunda no modelo de operação tradicional das empresas tecnológicas.
Num setor marcado por uma aceleração contínua da inovação e pela consolidação de investimentos em IA, as operações menos estratégicas — ou com menor massa crítica no ecossistema global — tornam-se vulneráveis. A operação portuguesa da Microsoft, sem escala comparável a outros mercados, é agora absorvida por uma lógica de gestão regionalizada, com impacto direto nas equipas locais.







