O contexto geopolítico atual trouxe à superfície um dilema que dominou muitas das reflexões e decisões tecnológicas nos anos 90: adotar ou não os, na altura emergentes, “open systems” (baseados nos “standards” da organização internacional OSI).
Tratava-se de reduzir a dependência tecnológica de determinados fornecedores que tinham atingido ou ameaçavam atingir posições dominantes no mercado tecnológico. Nesses anos, empresas como a HP, a Compaq ou a Unisys apresentavam o Unix e, depois, o Linux como as balas de prata para a plena liberdade tecnológica, dirigidas aos monopólios de facto como a Microsoft e a IBM.
Na época, os termos chave para o futuro imediato eram a globalização, a reengenharia e deslocalização de processos, os ERP, a World Wide Web, a computação pessoal ou as comunicações móveis.
E, com as TI em rápida evolução, o que começou como ideia de libertação, proveniente de meios universitários e de investigação, passou do movimento orgânico inicial para uma luta, por vezes surda outras vezes bem vocal, entre os grandes players digitais (quase todos eles grandes empresas americanas).
Acreditou-se progressivamente num futuro sem barreiras em que pessoas, empresas e países pudessem comunicar e transacionar livremente. E chegou-se a pensar que os gigantes tecnológicos tradicionais e emergentes estavam suficientemente domesticados em resultado da atuação dos reguladores americanos e europeus (entre investigações antimonopólio, multas milionárias e ordens para a divisão de grupos empresariais – até a Microsoft teve de fazer concessões, abrindo algumas soluções e aderindo a standards…).
Há vários anos que este cenário quase ideal deixou de ser credível.
Primeiro, porque a resistência das “grandes” (Amazon, Apple, Google, Microsoft, Meta,…) à livre concorrência e a uma fiscalidade equilibrada se revelou muito eficaz.
Depois, porque a entrada em força neste jogo de empresas chinesas (TikTok e Alibaba, por exemplo) despertou protecionismos “patrióticos” de naturezas diversas.
Finalmente, porque os principais atores do mundo digital, considerados empresas multinacionais muito concentradas nos negócios e relativamente independentes das estratégias dos seus governos, passaram, no atual contexto geopolítico, a ser vistos como potenciais armas para submeter não só adversários, mas, também, se necessário, parceiros e clientes.
Já se viu que na atual conjuntura mundial (quase) tudo pode acontecer. E que, no respeitante à situação da Europa digital, a mais elementar análise de riscos e cenários de contingência pode ser devastadora.
Para enfrentar este panorama, as soluções abertas e normas associadas podem ser um quadro de referência alternativo, mas não funcionarão, por si sós, como solução eficaz. Seria um pouco como entregar, no atual contexto, a defesa da soberania de um Estado exclusivamente à lei internacional.
No caso da União Europeia, se quiser manter-se como bloco independente e com algum poder, terá de afastar-se da sua vocação de grande regulamentadora e assumir decididamente a missão de recuperação da sua soberania digital. E para isso terá de definir uma estratégia assente, pelo menos, em duas prioridades:
- Negociação firme (e apoiada na capacidade legislativa) com os grandes players no sentido de garantir o controlo dos sistemas digitais essenciais ao funcionamento dos Estados e das empresas bem como à vida dos cidadãos.
- Procura e desenvolvimento de soluções alternativas nas áreas onde é possível, em tempo útil reduzir vulnerabilidades.
O que até agora se tem visto (pouco mais que iniciativas desgarradas de alguns países relacionadas com a localização de dados e uma suposta “nacionalização” da IA) não responde, de todo, às exigências deste momento crítico.
Alberto Sant´Ana Godinho é CEO Nolimits Consulting






