Duas visões para a IA marcam a competição entre China e EUA

Os maiores grupos tecnológicos chineses estão a acelerar o investimento em capacidade computacional e infraestruturas de inteligência artificial, mas com objetivos muito diferentes dos norte-americanos. Enquanto nos EUA o foco está em modelos cada vez mais ambiciosos, a estratégia chinesa privilegia aplicações práticas, eficiência industrial e escala, mesmo com limitações no acesso a chips avançados.
26 de Dezembro, 2025

O investimento em computação e inteligência artificial tornou-se um dos principais eixos da estratégia tecnológica chinesa em 2024. Os maiores grupos tecnológicos do país, liderados pela Alibaba, reservaram pelo menos 380 mil milhões de yuans, cerca de 54 mil milhões de dólares, para capacidade de computação e infraestruturas de IA ao longo deste ano. Este esforço decorre em paralelo com investimentos igualmente elevados nos Estados Unidos, mas com uma diferença clara de abordagem.

Segundo o CEO da Huawei, Ren Zhengfei, citado pela imprensa americana, os EUA estão a explorar conceitos como inteligência artificial geral e superinteligência artificial, procurando responder a questões de grande alcance, incluindo a própria definição do que é ser humano. Esta ambição ficou patente na estratégia anunciada em julho por Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que prevê levar a chamada “superinteligência pessoal” a milhares de milhões de utilizadores, com um orçamento de até 27 mil milhões de dólares em capacidade de computação este ano.

Na perspetiva chinesa, a prioridade é diferente. Ren Zhengfei defende que o país está focado na adoção da IA em cenários reais, com o objetivo de criar valor económico, aumentar a eficiência industrial, melhorar a segurança e reforçar a rentabilidade das empresas. Para o responsável, os principais requisitos técnicos da IA são o acesso a eletricidade em quantidade suficiente e uma rede de informação robusta, duas áreas onde a China considera ter vantagem competitiva.

Num encontro com estudantes no campus de Lianqiu Lake, Ren sublinhou que as capacidades de deteção e controlo da IA dependem da transmissão de dados a milhares de quilómetros de distância, algo que exige redes de comunicação avançadas e estáveis. Esta aposta em infraestruturas energéticas e de telecomunicações é vista como um pilar central da estratégia chinesa para escalar aplicações de IA no mundo real.

A diferença de posicionamento estende-se também ao plano geopolítico, alguns analistas observam que os Estados Unidos promovem explicitamente a exportação de soluções completas de IA, incluindo hardware, modelos, software, aplicações e normas, sobretudo para aliados e parceiros estratégicos, como forma de limitar o acesso de potenciais rivais. Em contraste, a China procura afirmar-se como parceira dos países do Sul Global, privilegiando a troca tecnológica aberta e a cooperação transfronteiriça, com menor condicionamento político.

Apesar das restrições no acesso aos chips de IA mais avançados, as empresas chinesas têm conseguido manter um nível competitivo em várias áreas, como demonstrou a start-up DeepSeek com o lançamento do modelo R1 em no inicio de 2025. Para Frank Kung, analista da TrendForce, citado pelo Mobile World Live, os fornecedores chineses optaram por uma abordagem baseada no uso de um maior número de chips, em vez de recorrer aos GPU de topo como as da Nvidia.

Esta estratégia implica custos mais elevados e centros de dados de maior dimensão para alcançar desempenho equivalente, mas representa uma solução prática perante as limitações existentes. Ainda assim, os fornecedores chineses enfrentam desvantagens ao nível da cadeia de abastecimento, nomeadamente na produção de wafers, na disponibilidade de largura de banda de alta velocidade e nos processos de fabrico.

Segundo Frank Kung, disse ao Mobile World Live, o desenvolvimento da IA na China segue essencialmente duas direções. Por um lado, a agregação de um grande número de chips em clusters de servidores para compensar o menor desempenho individual; por outro, uma aposta mais forte em aplicações de inferência, procurando diversificar os cenários de utilização mesmo com menor competitividade no treino de grandes modelos de linguagem.

Esta lógica de escala foi reconhecida pelo presidente rotativo da Huawei, Eric Xu, que admitiu que, ao nível de cada chip, o desempenho fica aquém das soluções da Nvidia. No entanto, ao nível de sistemas integrados, ou “super pods”, a empresa afirma conseguir disponibilizar plataformas de computação de elevado desempenho. Em setembro, Xu apresentou um roteiro que prevê o lançamento do sistema único mais potente do mercado no quarto trimestre de 2026, seguido de uma duplicação de desempenho no ano seguinte.

A evolução da inteligência artificial é encarada como um processo de longo prazo, com impactos que se irão estender por décadas. Neste horizonte temporal alargado, a competição entre China e Estados Unidos pela afirmação no setor deverá continuar a alternar entre fases de forte valorização do mercado e momentos de correção, refletindo tanto o ritmo do investimento como as incertezas tecnológicas, económicas e geopolíticas que envolvem esta corrida global.

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