Educação enfrenta aumento de ciberataques potenciados por IA

As escolas e universidades tornaram-se o principal alvo de ataques informáticos a nível mundial, com consequências que vão desde o roubo de dados até ao encerramento definitivo de instituições. A crescente utilização de plataformas digitais de ensino tem exposto vulnerabilidades que a inteligência artificial está a explorar com maior rapidez e sofisticação.
10 de Setembro, 2025

De acordo com a Check Point Research (CPR), o setor da educação é atualmente o mais atacado do mundo, registando uma média de 4.356 tentativas de intrusão por semana por organização em 2025. Este valor traduz-se num aumento de 41% face ao ano anterior e reflete-se de forma desigual em diferentes regiões: na Ásia-Pacífico, os ataques ultrapassam os 7.800 por semana, enquanto nos Estados Unidos a subida foi de 67%. Também a Europa registou uma tendência ascendente, com um crescimento anual de 48% e uma média semanal de 4.161 ataques, enquanto em África o aumento foi de 56%.

A vulnerabilidade do setor deve-se, em grande parte, à natureza crítica dos dados que armazena, desde informações pessoais de alunos e professores até registos financeiros e académicos. Muitas instituições ainda recorrem a infraestruturas tecnológicas desatualizadas, com escassez de recursos para atualizar as suas defesas. Além disso, a ligação a múltiplos intervenientes externos, como pais, fornecedores e entidades educativas, amplia a superfície de ataque disponível para os cibercriminosos.

Ciberataques com impacto além da tecnologia

Os efeitos destes incidentes vão muito além dos sistemas informáticos, chegando a provocar interrupções no funcionamento de escolas e universidades. Em 2023, o impacto financeiro foi particularmente grave no ensino, com os pagamentos médios de resgate a rondarem 6,6 milhões de dólares no ensino básico e 4,4 milhões no ensino superior, segundo a Sophos. Apesar destes valores, apenas 30% das instituições afetadas conseguiram recuperar totalmente os seus sistemas na primeira semana após um ataque.

A comercialização de dados académicos na dark web tornou-se prática recorrente, abrangendo desde certificados falsificados até registos completos de estudantes. Casos extremos, como o do Lincoln College, nos Estados Unidos, evidenciam a gravidade da ameaça: a instituição, com 157 anos de existência, encerrou definitivamente após um ataque de ransomware.

Inteligência artificial como acelerador da ameaça

A chegada da inteligência artificial veio alterar o panorama da cibercriminalidade. As ferramentas de IA estão a ser utilizadas para criar campanhas de phishing com recurso a deepfakes, automatizar o roubo de credenciais e gerar malware capaz de explorar falhas em minutos. Em julho de 2025, a Check Point identificou mais de 18 mil novos domínios ligados ao setor educativo, dos quais um em cada 57 tinha origem maliciosa. Muitos desses sites foram desenvolvidos com recurso a IA para replicar páginas escolares ou plataformas de pagamento.

Do lado da defesa, a inteligência artificial permite agora detetar comportamentos suspeitos em milhares de contas, bloquear ataques em tempo real e identificar malware desconhecido antes de este se propagar. No entanto, a eficácia destas soluções depende de uma componente humana essencial: a literacia em cibersegurança. Sem formação adequada para alunos, professores e pais, mesmo os sistemas mais avançados podem falhar.

Para reduzir os riscos, a Check Point recomenda a adoção de uma abordagem preventiva, apoiada em tecnologia e sensibilização. O reforço da autenticação multifator, a segmentação de redes, a formação contra phishing e a atualização regular de plataformas de colaboração estão entre as medidas apontadas como prioritárias. Paralelamente, a integração da educação para a cibersegurança nos currículos escolares, incluindo noções básicas sobre inteligência artificial, é vista como um passo determinante para proteger o setor.

Segundo Rui Duro, Country Manager da Check Point Software Technologies em Portugal, a escalada de ataques potenciados por IA já compromete a continuidade do ensino em milhares de casos e exige uma resposta que combine defesas tecnológicas avançadas com maior sensibilização de toda a comunidade educativa.

Opinião