Empresas europeias continuam sem conseguir detetar ataques com recurso a inteligência artificial

Um estudo da ISACA revela que mais de um terço das organizações europeias não consegue confirmar se já foi alvo de ciberataques apoiados por inteligência artificial. A rápida adoção destas ferramentas nas empresas está a avançar mais depressa do que os mecanismos de controlo, aumentando a pressão sobre equipas de segurança e responsáveis tecnológicos.
12 de Maio, 2026

A evolução das ameaças informáticas suportadas por inteligência artificial está a ultrapassar a capacidade de resposta de muitas empresas europeias. Um estudo realizado pela associação ISACA junto de 681 profissionais da área da confiança digital conclui que 35% das organizações não conseguem confirmar se sofreram ataques cibernéticos orquestrados com recurso a inteligência artificial.

O inquérito, denominado “AI Pulse Poll 2026”, aponta para uma crescente dificuldade das equipas de segurança tecnológica em identificar métodos de fraude digital cada vez mais sofisticados. Cerca de 71% dos especialistas considera que técnicas como a engenharia social e a falsificação de identidade se tornaram significativamente mais difíceis de detetar devido à utilização de algoritmos avançados.

A pressão aumenta também ao nível da validação da informação digital. Segundo o estudo, 58% dos profissionais admite encontrar maiores dificuldades em verificar a autenticidade dos conteúdos com que trabalha diariamente. Como consequência, 38% afirma confiar menos nos mecanismos tradicionais de deteção de ameaças.

Entre os riscos mais citados pelas organizações europeias destacam-se as campanhas de desinformação, referidas por 87% dos inquiridos. Surgem ainda preocupações relacionadas com a privacidade dos dados e com técnicas de manipulação psicológica dirigidas aos utilizadores.

Apesar do aumento do risco, a inteligência artificial está também a assumir um papel crescente na proteção das infraestruturas digitais. Um total de 43% dos profissionais inquiridos identifica melhorias na capacidade de detear e responder a intrusões graças ao uso destas tecnologias. Paralelamente, 34% das empresas já utiliza ferramentas de inteligência artificial especificamente para reforçar mecanismos defensivos.

Ainda assim, a eficácia destas soluções continua dependente de competências técnicas especializadas que permanecem insuficientes em muitas organizações.

A disseminação destas ferramentas nos ambientes de trabalho europeus está a acontecer a um ritmo elevado. O estudo indica que 82% das organizações já permitem explicitamente o uso de inteligência artificial, enquanto 74% autorizam a utilização de modelos generativos.

As aplicações mais frequentes incluem produção de conteúdos, automatização de tarefas repetitivas, análise de grandes volumes de informação e melhoria da produtividade operacional. As empresas relatam ganhos de eficiência e capacidade para aumentar o volume de trabalho sem necessidade de reforçar equipas.

Contudo, a adoção massiva destas ferramentas não tem sido acompanhada por mecanismos de controlo equivalentes. Apenas 42% das organizações dispõe de políticas formais e abrangentes para regular a utilização de inteligência artificial dentro da empresa.

O estudo revela ainda que 33% das empresas nem sequer exige aos colaboradores que comuniquem quando recorrem a estas plataformas nas suas tarefas diárias, criando zonas de menor visibilidade dentro das estruturas corporativas.

Este contexto está a gerar preocupação entre os responsáveis tecnológicos. Cerca de 87% dos profissionais manifesta receio relativamente ao uso não autorizado destas ferramentas por parte dos trabalhadores, sobretudo devido aos riscos associados à proteção de propriedade intelectual e informação confidencial.

Chris Dimitriadis, diretor de estratégia global da ISACA, considera que a inteligência artificial alterou de forma estrutural o panorama das ameaças digitais, permitindo que atacantes atuem com maior rapidez e escala. O responsável defende igualmente que a ausência de modelos de governação sólidos agrava significativamente a exposição das empresas.

A necessidade de qualificação técnica surge como outro dos principais desafios identificados pelo estudo. Mais de metade dos especialistas considera necessário atualizar competências num prazo curto, enquanto 79% acredita que essa necessidade será ainda mais crítica dentro de um ano.

Apesar disso, uma em cada cinco empresas continua sem disponibilizar formação formal nesta área aos seus profissionais.

O enquadramento regulatório europeu acrescenta pressão adicional sobre as organizações. A Lei da Inteligência Artificial da União Europeia surge como a principal referência normativa seguida pelas empresas, à frente dos standards do modelo NIST. Ainda assim, mais de um quarto das organizações admite operar sem qualquer enquadramento regulatório específico.

O estudo conclui que a adoção de inteligência artificial está a avançar mais depressa do que a capacidade das empresas para criar mecanismos de supervisão, controlo e conformidade. Neste contexto, cresce a procura por certificações avançadas e competências especializadas em gestão de risco tecnológico e governação de inteligência artificial.

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