Energia mais cara pode travar ritmo de crescimento da inteligência artificial

O aumento dos preços da energia, na sequência do conflito no Médio Oriente, está a introduzir dúvidas num dos maiores ciclos de investimento tecnológico dos últimos anos. A inteligência artificial continua a crescer, mas enfrenta agora um teste mais exigente do ponto de vista económico.
21 de Março, 2026

A escalada recente no preço da energia está a fazer-se sentir muito para além dos mercados tradicionais. O petróleo subiu mais de 50% e o gás natural liquefeito duplicou de preço, criando um efeito em cadeia nos custos globais, com impacto direto em áreas intensivas em consumo energético.

No centro desta questão está o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa da energia consumida a nível mundial. A instabilidade nesta rota mantém os preços pressionados e reforça a incerteza num momento em que muitas empresas estão a acelerar investimentos tecnológicos.

É aqui que a inteligência artificial começa a ser olhada também sob uma perspetiva de custo. Os centros de dados, essenciais para suportar esta tecnologia, consumiram cerca de 1,5% da eletricidade global em 2024, sendo que a parcela associada à inteligência artificial, embora ainda menor, tem vindo a crescer de forma consistente.

Um facto inalterável é que quanto maior é ambição tecnológica, maior a fatura energética. E com os preços elevados, esta equação torna-se mais difícil de gerir, sobretudo para empresas que dependem de infraestruturas intensivas em processamento.

Se os preços da energia se mantiverem elevados ao longo do ano, o ritmo de crescimento da inteligência artificial poderá abrandar, não por falta de interesse, mas por pressão sobre os custos e a rentabilidade. Alertou por estes dias a Organização Mundial do Comércio.

Ao mesmo tempo, há sinais de cautela do lado do investimento. Uma parte significativa do capital aplicado em inteligência artificial está concentrada em poucas empresas, num cenário em que ainda não é totalmente claro qual será o retorno real desta tecnologia. Esta concentração aumenta a sensibilidade do mercado a qualquer mudança de estratégia.

Os dados ajudam a perceber a dimensão desta aposta. Cerca de 70% do crescimento do investimento na América do Norte, nos primeiros três trimestres do último ano, esteve ligado à inteligência artificial, um peso invulgar quando comparado com outros períodos recentes.

Apesar deste contexto mais exigente, o comércio mundial continua a crescer. Em 2025, a subida ronda os 4,6%, mesmo com tensões comerciais e tarifas adicionais. Ainda assim, o cenário pode mudar rapidamente. As previsões apontam para uma desaceleração até 1,4% caso os preços da energia se mantenham elevados durante mais tempo, refletindo o impacto mais alargado desta pressão.

Para quem decide investimentos em tecnologia, o momento exige algum equilíbrio. A inteligência artificial mantém-se no centro das prioridades, mas a variável custo, em particular o custo da energia, voltou a ganhar peso nas decisões. E isso poderá redefinir o ritmo desta transformação nos próximos meses.

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