Energia mais segura mas não necessariamente menos vulnerável

29 de Maio, 2026

Durante vários anos, o debate energético em Portugal esteve concentrado na descarbonização da economia e no impacto dos preços da energia sobre famílias e empresas. Contudo, a sucessão de crises internacionais, desde conflitos geopolíticos a fenómenos meteorológicos extremos, trouxe para o centro da discussão uma questão mais fundamental, a capacidade do país para garantir o abastecimento energético e assegurar a resiliência das suas infraestruturas críticas.

Foi precisamente essa distinção que o secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Barroca, citado pela Lusa, procurou sublinhar durante uma audição parlamentar dedicada aos efeitos da crise energética associada ao conflito no Médio Oriente. O governante defendeu que Portugal se encontra atualmente numa posição relativamente robusta do ponto de vista do abastecimento físico de energia, graças às reservas estratégicas, à diversificação das infraestruturas de abastecimento, à capacidade de receção de gás natural liquefeito no terminal de Sines e à capacidade nacional de refinação.

A robustez do sistema energético português assenta hoje sobretudo na diversificação das fontes de abastecimento e na infraestrutura construída ao longo das últimas décadas, mais do que numa redução efetiva da dependência externa.

Em 2025, os principais fornecedores de petróleo bruto foram o Brasil e a Argélia, enquanto a Nigéria e o Brasil lideraram o fornecimento de gás natural. Esta dispersão geográfica reduz riscos associados a uma dependência excessiva de um único mercado, mas não elimina a exposição às oscilações dos preços internacionais.

Essa vulnerabilidade continua evidente. Como reconheceu Jean Barroca, a evolução dos preços energéticos está cada vez mais dependente de fatores externos e de acontecimentos globais. Num mercado internacional altamente interligado, uma alteração nas expectativas dos investidores ou um novo episódio de tensão geopolítica pode refletir-se rapidamente nos custos suportados por empresas e consumidores portugueses.

Os números mais recentes da Direção-Geral de Energia e Geologia mostram, ainda assim, uma evolução favorável. Em 2025, a fatura energética representou 17,6% do défice comercial de mercadorias, o valor mais baixo da última década. O saldo importador de produtos energéticos fixou-se em 5.579 milhões de euros, menos 5,3% do que no ano anterior.

Contudo, a leitura destes indicadores exige alguma cautela. Apesar da redução da fatura energética, o petróleo bruto e os seus derivados continuaram a representar 75% das importações energéticas portuguesas em valor, ainda que tenham registado uma redução de 19% face a 2024.

A melhoria dos indicadores económicos não altera o facto de os combustíveis fósseis continuarem a dominar a estrutura das importações energéticas nacionais.

No setor elétrico, os dados revelam uma realidade igualmente complexa. Segundo a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), as fontes renováveis asseguraram 75,6% da eletricidade produzida em Portugal continental durante 2025. Apesar deste desempenho, a incorporação renovável no consumo ficou pelos 68%, abaixo da meta de 86% definida para esse ano no Plano Nacional de Energia e Clima.

A APREN considera mesmo que 2025 representou um ponto de inflexão para o setor elétrico nacional. O apagão de 28 de abril e as preocupações subsequentes com a estabilidade do sistema conduziram a um aumento da produção elétrica a partir de gás natural. Entre maio e agosto do ano passado, a produção dos ciclos combinados quase quadruplicou em comparação com o mesmo período de 2024.

Os acontecimentos de 2025 demonstraram que a transição energética não depende apenas da capacidade de produzir energia renovável, mas também da capacidade de garantir estabilidade e segurança de abastecimento em situações de pressão sobre o sistema.

Os dados mais recentes apontam, contudo, para uma recuperação. Em abril de 2026, as energias renováveis garantiram 77% da eletricidade produzida em Portugal continental, impulsionadas pelo melhor desempenho anual da produção solar fotovoltaica.

A resiliência das redes tornou-se outro dos temas centrais da política energética. A tempestade Kristin afetou cerca de três milhões de consumidores e expôs os desafios associados à resposta a fenómenos climáticos cada vez mais severos. Embora o número máximo de clientes afetados em simultâneo tenha rondado um milhão, o episódio colocou em evidência a importância das infraestruturas de distribuição para a segurança energética do país.

O presidente da E-Redes, José Ferrari Careto, citado pela Lusa, reconheceu no Parlamento que parte das intervenções realizadas para acelerar a reposição do fornecimento assentou em soluções temporárias, o que deixou alguns segmentos da rede mais vulneráveis até à conclusão das obras definitivas.

A rapidez na recuperação do serviço revelou-se essencial, mas também evidenciou a necessidade de investimentos contínuos para reforçar a robustez da rede perante fenómenos meteorológicos extremos.

Este debate ganha uma importância adicional num contexto em que o sistema elétrico enfrenta novas exigências. A eletrificação dos transportes, da indústria e dos edifícios já representa uma pressão crescente sobre as infraestruturas energéticas. A esta tendência soma-se agora a expansão dos centros de dados .

O desafio dos centros de dados

A crescente procura por serviços de computação na cloud e aplicações de inteligência artificial está a impulsionar uma nova vaga de investimento em centros de dados. Estas infraestruturas tornaram-se um dos principais motores de crescimento da procura elétrica em diversas economias desenvolvidas e passaram a ser um fator relevante no planeamento energético de longo prazo.

Neste contexto, Portugal surge frequentemente como um potencial destino para novos investimentos, beneficiando da sua posição geográfica estratégica, da ligação a cabos submarinos internacionais e da elevada incorporação de energias renováveis no sistema elétrico.

A capacidade de produzir eletricidade com uma forte componente renovável pode constituir uma vantagem competitiva para Portugal numa altura em que os grandes operadores de centros de dados procuram reduzir a pegada carbónica das suas operações.

Contudo, os desafios identificados ao longo do último ano levantam questões sobre a capacidade de acomodar uma procura elétrica significativamente superior sem investimentos adicionais em produção, armazenamento e redes.

Os episódios registados em 2025 mostraram que a estabilidade do sistema continua a exigir capacidade de geração de reserva e uma infraestrutura resiliente. Num cenário de crescimento acelerado do número de centros de dados, a disponibilidade de energia deixará de ser apenas uma questão de sustentabilidade ambiental para se tornar também uma questão de competitividade económica.

A atração destes investimentos dependerá cada vez mais da capacidade de garantir fornecimento contínuo, previsibilidade de custos e rapidez no acesso às ligações à rede. São precisamente estas variáveis que estão hoje no centro das medidas aprovadas pelo Governo para resposta a crises energéticas, incluindo o reforço das redes, a aceleração de projetos renováveis e a criação de novos modelos de partilha de energia.

A questão para Portugal já não é apenas assegurar energia suficiente para o consumo atual, mas determinar se conseguirá expandir a infraestrutura energética ao ritmo exigido pela economia digital da próxima década.

Paralelamente, continua por resolver um desafio de natureza social. Portugal estima ter entre 1,8 e 3 milhões de pessoas em situação de pobreza energética, das quais entre 609 mil e 660 mil enfrentam situações severas. A Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética, aprovada em 2024, estabelece como meta a erradicação deste fenómeno até 2050.

A coexistência entre a necessidade de atrair investimento intensivo em energia e a obrigação de garantir acesso acessível à eletricidade para a população poderá tornar-se um dos principais desafios da política energética portuguesa nos próximos anos.

No conjunto, os vários indicadores apontam para um sistema mais preparado do que aquele que existia há uma década. Contudo, os acontecimentos recentes demonstram que a segurança energética, a resiliência das redes e a capacidade de expansão das infraestruturas continuam a ser fatores determinantes. A estratégia defendida pelo Governo, assente na eletrificação dos consumos, no reforço das redes, no armazenamento de energia, no autoconsumo e nos gases renováveis, como o biometano, revela-se cada vez mais relevante não apenas para reduzir a dependência energética externa, mas também para definir o papel que Portugal poderá desempenhar na nova economia digital europeia.

Com informação Lusa

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