No Coffee Break do Digital Inside, conversámos com Hugo de Oliveira no meio do ritmo acelerado do Web Summit. No dia anterior, a Microsoft tinha anunciado um investimento de 10 mil milhões de euros em Portugal. A pergunta impunha-se. Mudou alguma coisa nos planos do SINES Data Campus?
A resposta foi direta. Nada mudou no essencial. A Start Campus já tinha definido desde 2022 o objetivo de erguer um data center com escala para responder à procura crescente na Europa. A meta continua intacta. Um campus de 1.2 gigawatts, o maior projeto europeu do género, desenhado para servir hyperscalers e workloads de IA que não param de crescer.
Hugo de Oliveira explicou que o mercado já existia muito antes do anúncio da Microsoft. O que falta hoje no continente é disponibilidade. Nesse cenário, a entrada de novos clientes é um movimento natural.
Para a Start Campus, Portugal não foi uma escolha exótica. Foi uma escolha lógica. O país oferece um pacote raro na Europa: acesso a energia renovável em grande escala, preços competitivos, espaço para construir e uma infraestrutura pré-existente que podia ser reaproveitada.
A antiga central termoelétrica de Sines deu ao projeto algo crítico: acesso ao sistema de captação e devolução de água do mar. Essa reutilização permite arrefecer os servidores sem consumir água doce. O consumo hídrico é um dos problemas mais graves da indústria, e a Start Campus quis atacar o tema logo no início.
Hugo de Oliveira descreve o esforço como uma obsessão: pegar num tipo de infraestrutura que, por natureza, não é sustentável e torná-la o mais responsável possível.
Existe a ideia de que grandes data centers criam poucos postos de trabalho quando entram em operação. Hugo de Oliveira desmonta essa perceção. A fase de construção é a que envolve mais gente, mas a operação contínua exige equipas de engenharia especializadas em arrefecimento, energia, conectividade, eletrónica e mecânica.
O mais interessante é o movimento que o projeto está a provocar. Engenheiros portugueses que estavam em gigantes internacionais voltaram ao país porque viram no SINES Data Campus um desafio único. Alguns vieram de empresas como Google e Amazon. Há talento jovem que regressou, mas há também perfis altamente especializados que encontraram aqui um projeto com escala global.
Quanto ao modelo interno da Start Campus, Hugo sublinha o ambiente multicultural e o foco num objetivo comum. Não se trata de promessas vazias de carreiras rápidas. É a natureza do projeto que puxa as equipas.
O primeiro edifício, com 31 megawatts, já está concluído. O próximo terá 180 megawatts. Ao todo, o campus prevê cinco edifícios, todos na mesma localização. Hugo de Oliveira não esconde que o projeto é enorme e que só este conjunto já representa uma operação de escala continental.
Ainda assim, não fecha a porta a novas localizações em Portugal. A prioridade agora é levantar tudo o que já está planeado. Depois disso, a expansão pode avançar para novos pontos no país.
IA, consumo energético e a hipótese de bolha
A conversa não podia fugir ao tema que domina o setor. Será que a procura de capacidade para IA é sustentável ou estamos numa bolha? Hugo de Oliveira reconhece que existe algum exagero na narrativa. Mas o consumo é real. Basta andar pelos corredores de um data hall para perceber que não se trata de ficção. Quando parte do mundo acorda, as ventoinhas aceleram. Quando adormece, o ruído muda de zona.
A IA precisa de energia e precisa de servidores. O futuro pode mudar com a computação quântica, que vai reconfigurar os mecanismos de processamento e de treino de modelos. Mas esse momento ainda não chegou.
Outro ponto relevante. O investimento é 100 por cento privado. O Estado português não colocou qualquer verba no SINES Data Campus. Para Hugo, o que o país ofereceu foi contexto, condições naturais e estabilidade para atrair esta escala de investimento.
Portugal tem condições para ser um polo europeu de infraestrutura digital. Energia renovável, clima ameno, acesso ao Atlântico, talento técnico e espaço para crescer são argumentos raros no continente.
O SINES Data Campus não é apenas mais um edifício. É um sinal de que o país pode competir pelo futuro da cloud e da IA com a mesma ambição que outros mercados já demonstram.







