Entre a urgência digital e a pressão da eficiência

Tecnologia, talento e resiliência estão no centro das prioridades estratégicas reveladas em Davos.
10 de Março, 2025

O Fórum Económico Mundial de Davos 2025 revelou uma combinação rara de otimismo e sentido de urgência. À medida que líderes empresariais delineavam as grandes linhas do crescimento futuro, emergiram também verdades desconfortáveis que os Chief Information Officers (CIO) não podem ignorar. A transformação digital já não é uma aspiração — é uma exigência estrutural para a sobrevivência organizacional.

Segundo dados do Capgemini Research Institute, 62% dos líderes empresariais em grandes organizações expressaram confiança no crescimento nos próximos meses. Ainda assim, a confiança vem acompanhada de uma consciência clara: o sucesso sustentável exigirá ação ousada e foco cirúrgico em áreas estratégicas.

A contenção orçamental continua a ser um imperativo para os CIO. Em 2025, 56% das organizações estão a privilegiar a redução de despesas em detrimento do crescimento da receita. No entanto, cortar por cortar pode ser contraproducente. A aposta deve ser no “gasto inteligente” — modernizar infraestruturas tecnológicas, automatizar processos e reduzir a dívida tecnológica são caminhos para uma eficiência duradoura sem comprometer a inovação.

O desafio? Fazer mais com menos, mas sem perder o rumo estratégico. O investimento em tecnologias de automação e transformação digital não deve ser visto como despesa, mas como alicerce de resiliência e competitividade.

A vulnerabilidade das cadeias de abastecimento globais tornou-se uma preocupação central. A maioria dos líderes empresariais (62%) planeia intensificar os investimentos em sustentabilidade. Para os CIO, isto implica repensar a tecnologia ao serviço da resiliência: desde a visibilidade end-to-end até à implementação de análises preditivas baseadas em IA.

Mais do que mitigar riscos, trata-se de construir cadeias de valor preparadas para a complexidade geopolítica e climática. A logística verde, a segurança dos dados e a conformidade regulatória passam a ser ativos estratégicos — e não apenas obrigações legais.

A experiência do cliente (CX) deixou de ser uma vantagem diferencial — é agora um pré-requisito para a sobrevivência. Com 78% dos líderes a reforçar os investimentos em CX, cabe aos CIO acelerar a personalização através da inteligência artificial e da análise de dados. O objetivo é claro: criar jornadas digitais fluidas, impulsionar a fidelização e gerar crescimento através de experiências memoráveis.

Neste novo paradigma, a tecnologia não é apenas suporte — é o coração da relação com o cliente.

Uma das verdades mais incómodas de Davos foi a crescente disparidade entre os níveis de investimento tecnológico nos EUA e na Europa. As empresas norte-americanas estão a investir significativamente mais — 1,45% da receita anual contra 1,29% na Europa (no caso de grandes empresas), com uma diferença ainda mais acentuada entre médias empresas.

As causas são estruturais: comercialização mais lenta da inovação, fragmentação regulatória, subfinanciamento público e privado em I&D, fuga de talentos e uma cultura empresarial ainda centrada em tecnologias maduras.

Para os CIO europeus, o recado é claro: é urgente tomar medidas corajosas — desde acelerar a adoção de tecnologias emergentes até fomentar ecossistemas de inovação mais ágeis e competitivos.

A escassez de talento digital é outra ameaça estrutural. Quase dois terços dos líderes (64%) apontam a falta de competências como um risco crítico ao crescimento nos próximos 12 a 18 meses. Setores como telecomunicações, tecnologia, ciências da vida e seguros estão particularmente expostos.

Os CIO terão de liderar uma mudança de paradigma: substituir modelos centrados em cargos por abordagens baseadas em competências. Upskilling, reskilling e desenvolvimento de soft skills como comunicação e pensamento crítico deverão tornar-se práticas centrais na estratégia empresarial.

Sem talento, nenhuma transformação tecnológica será bem-sucedida.

Para os CIO, o futuro não será conquistado com cortes cegos, mas com decisões inteligentes. O caminho passa por equilibrar a eficiência com o investimento estratégico, reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento, personalizar a experiência do cliente, combater o défice de inovação europeu e investir nas pessoas que farão a diferença.

Opinião