Historicamente, os profissionais com mais de 55 anos que ocupavam cargos centrados no processamento de dados e na programação beneficiavam de taxas de abandono profissional inferiores às dos seus pares em funções que exigiam um maior esforço físico. Os registos do Inquérito à População Ativa dos EUA, que abrangem o período desde janeiro de 2014, mostram que, antes da disponibilização generalizada da inteligência artificial generativa, os trabalhadores mais velhos nestas funções tendiam a ter carreiras mais longas, com uma taxa de abandono de 11,7% contra 14,1% nos empregos com baixa exposição. Além disso, estes cargos técnicos caracterizavam-se por reunir perfis com formação universitária e níveis de rendimento mais elevados.
A introdução do ChatGPT, em novembro de 2022, representou um ponto de viragem na integração destas tecnologias no mercado de trabalho. Inicialmente, a preocupação com a automatização e a possível substituição do pessoal centrou-se nos segmentos mais jovens da população que ocupam os cargos juniores.
Para avaliar o impacto real desta transição na fase final das carreiras profissionais, uma investigação recente cruzou os dados de emprego com o Índice de Exposição à Inteligência Artificial do projeto Digital Planet da Universidade de Tufts (Massachusetts, Estados Unidos). Este índice quantifica a capacidade dos modelos de linguagem e da aprendizagem automática para executar as tarefas diárias de cada profissão, concluindo que as tarefas relacionadas com dados e programação apresentam a maior exposição às mudanças, enquanto os trabalhos manuais ou de interação pessoal registam os níveis mais baixos.
Embora este estudo se refira à realidade dos Estados Unidos, a proximidade cultural desse país com a Europa pode fazer com que, aqui (incluindo Portugal), venhamos a enfrentar um fenómeno muito semelhante, se não idêntico.
Na sequência da popularização das ferramentas de IA generativa, os estudos revelam um panorama de adoção desigual entre os profissionais de idade mais avançada. Assim, os dados indicam que menos de um quinto dos trabalhadores com idades compreendidas entre os 50 e os 64 anos utiliza IA generativa na sua rotina, embora esta proporção aumente para 42% no caso dos responsáveis pela tomada de decisões com mais de 55 anos.
Apesar destes números, a aceitação continua a ser significativamente inferior à observada nas faixas etárias entre os trinta e os quarenta anos. Várias sondagens revelam que uma percentagem considerável dos colaboradores mais experientes, cerca de 28%, encara estas tecnologias como uma ameaça ao seu posto de trabalho, superando em número os 18% que as veem como uma oportunidade de desenvolvimento.
Segundo o estudo, a implementação destas aplicações em ambientes empresariais apresenta diferentes cenários para os últimos anos da carreira profissional: por um lado, a automatização de tarefas pode levar à substituição do trabalhador, resultando em desemprego ou na saída definitiva do mercado de trabalho. Por outro lado, a pressão empresarial para se adaptar aos novos requisitos tecnológicos pode motivar saídas voluntárias por parte daqueles que preferem evitar a aprendizagem de novos sistemas. Em contrapartida, se a tecnologia for adotada com sucesso, o aumento da produtividade e dos salários poderá prolongar a vida profissional, permitindo que os profissionais se concentrem em tarefas de maior valor.
A análise do período posterior ao lançamento dos grandes modelos de linguagem demonstra uma mudança na tendência histórica estabelecida; os trabalhadores com mais de 55 anos em empregos com elevada exposição à inteligência artificial registaram um aumento relativo nas saídas do mercado de trabalho e nas transições para o desemprego. A vantagem histórica que estes profissionais possuíam em relação aos empregos de baixa exposição, em termos de longevidade das suas carreiras, reduziu-se consideravelmente.
Embora as suas taxas de abandono continuem a ser inferiores, em termos absolutos, às dos empregos predominantemente físicos, os dados confirmam que a expansão da inteligência artificial está a empurrar um segmento dos profissionais mais velhos para um fim antecipado da sua vida profissional.

