Mais de 60 economistas europeus dirigiram uma carta aberta aos membros do Parlamento Europeu a pedir apoio explícito ao euro digital, cuja votação deverá ocorrer ainda este ano. O alerta central é económico e monetário: se a proposta falhar, a zona euro poderá perder capacidade de controlo sobre a moeda utilizada por 21 dos 27 Estados-membros da União Europeia.
A ideia de uma versão digital do euro foi lançada em 2020 pelo Banco Central Europeu, num contexto em que os pagamentos eletrónicos ganham terreno de forma acelerada. Para o BCE, a questão não é substituir o dinheiro físico, mas garantir que a moeda única continua funcional e credível num sistema financeiro cada vez mais digital. A mensagem transmitida desde então é que a inação pode traduzir-se em perda de relevância monetária.
A dimensão económica do projeto cruza-se com preocupações de segurança e autonomia estratégica. Num documento publicado em outubro de 2023, a União Europeia enquadrou o euro digital como um complemento ao numerário, sublinhando os riscos associados a dependências externas. A pandemia e a guerra na Ucrânia evidenciaram fragilidades estruturais, desde cadeias de abastecimento até infraestruturas críticas, reforçando a necessidade de reduzir vulnerabilidades sistémicas.
Na carta enviada aos eurodeputados, os economistas classificam o euro digital como um instrumento essencial para a soberania, estabilidade e resiliência económica da Europa, apontando 2029 como horizonte para a sua entrada em funcionamento. Embora sem referências diretas, o texto surge num momento de maior tensão nas relações transatlânticas e de questionamento sobre a solidez de garantias internacionais que durante décadas foram dadas como adquiridas.
Do ponto de vista do mercado, a dependência europeia de sistemas de pagamento sediados nos Estados Unidos é um dos argumentos centrais a favor do projeto. Plataformas como Mastercard, Visa e PayPal concentram uma fatia significativa das transações digitais na Europa. Para os signatários da carta, esta concentração expõe a zona euro a riscos de pressão geopolítica, interesses comerciais externos e falhas sistémicas fora do controlo das autoridades europeias.
No início de 2025, a presidente do BCE, Christine Lagarde, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçaram esta leitura num artigo publicado no Financial Times. O euro digital foi apresentado como parte de uma estratégia económica mais ampla para posicionar a União Europeia num mundo marcado por mudanças tecnológicas rápidas, perda de peso industrial e aumento de custos energéticos.
Apesar deste enquadramento macroeconómico, o setor bancário europeu mantém reservas significativas. Em novembro, 14 grandes instituições financeiras, incluindo BNP Paribas e Deutsche Bank, alertaram que o euro digital pode dificultar iniciativas privadas destinadas a competir com os grandes operadores norte-americanos. Na Alemanha, o principal grupo de representação da banca considerou o projeto demasiado complexo e oneroso, questionando também o valor acrescentado para clientes e empresas.
À medida que a decisão política se aproxima, o euro digital transforma-se num debate tipicamente económico: como equilibrar soberania monetária, eficiência do sistema de pagamentos e custos para o setor financeiro. A resposta do Parlamento Europeu será determinante para definir até que ponto a Europa está disposta a intervir diretamente na arquitetura do seu próprio sistema monetário digital.
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