Europa e América Latina vão ter Fórum Digital

Madrid prepara-se para acolher um novo espaço de diálogo político e tecnológico entre a Península Ibérica e a América Latina. A iniciativa, anunciada pelo ministro espanhol responsável pela Transformação Digital, pretende reunir governos, empresas e academia para discutir inteligência artificial, conectividade e gestão de dados, numa tentativa de reforçar a cooperação tecnológica entre regiões que procuram manter relevância na economia digital.
10 de Março, 2026

A capital espanhola foi escolhida para receber a primeira edição do Fórum Digital ibero-americano, um encontro que decorrerá nos dias 3 e 4 de novembro e que se integrará na trigésima edição da Cimeira Ibero-Americana. O anúncio foi feito por Óscar López, responsável pela pasta da Transformação Digital e da Função Pública do governo espanhol, durante a sua participação no Digital Summit Latam 2026, realizado em Madrid.

O novo fórum pretende reunir representantes governamentais, empresas, organizações internacionais, universidades e profissionais dos media de toda a comunidade ibero-americana. A ideia é criar um espaço de trabalho focado em acelerar acordos e lançar projetos tecnológicos concretos entre países da Península Ibérica e da América Latina.

De acordo com a informação divulgada, a iniciativa surge com o objetivo de evitar a duplicação de esforços que já decorrem noutras instituições e concentrar recursos em iniciativas tecnológicas conjuntas. A lógica é pragmática. Em vez de múltiplos programas dispersos, a proposta passa por alinhar prioridades e definir projetos comuns que possam ser executados em colaboração.

Durante as sessões de trabalho, o debate deverá concentrar-se em vários temas que hoje dominam a agenda tecnológica internacional. Entre eles estão o desenvolvimento da inteligência artificial, a criação de espaços digitais seguros, o reforço das infraestruturas de conectividade e a gestão da informação. Em termos práticos, trata-se de discutir como estas áreas podem evoluir sem que os países da região percam competitividade num processo de digitalização que está a acelerar à escala global.

A discussão procura também identificar novas oportunidades de cooperação que permitam aos países ibero-americanos manter peso na transição digital global. O tema não é menor. A digitalização das economias, assente em dados, infraestruturas de rede e plataformas tecnológicas, tem concentrado valor em poucos polos geográficos, sobretudo nos Estados Unidos e na Ásia.

A estratégia delineada para os próximos cinco anos aponta igualmente para um esforço de coordenação regulatória. Em cima da mesa estará a criação de enquadramentos legais comuns em matérias como a regulação tecnológica, a proteção de direitos na Internet e a redução das desigualdades no acesso às tecnologias digitais.

Segundo a posição expressa pelo ministério espanhol, a harmonização de normas entre países não deverá limitar a autonomia dos Estados. Pelo contrário, a visão apresentada sustenta que uma maior coordenação pode reforçar a capacidade de negociação destas regiões perante as dinâmicas do mercado tecnológico global.

O responsável governamental espanhol alertou para o facto de a independência tecnológica absoluta ser, no atual contexto internacional, praticamente impossível. Mesmo as principais potências dependem de cadeias de fornecimento globais e de recursos externos.

Nesse cenário, tanto a Europa como a América Latina são incentivadas a reforçar o investimento em infraestruturas digitais próprias e em redes de conectividade inter-regionais. Sem esse esforço, o risco aumenta e estas regiões poderão ficar confinadas a um papel periférico na economia digital, limitando-se a fornecer energia ou dados enquanto o valor económico gerado por esses recursos é capturado por empresas e mercados de outros países.

A criação do Fórum Digital ibero-americano surge, assim, como uma tentativa de estruturar uma resposta conjunta a esse desafio. Para decisores tecnológicos e responsáveis de investimento em infraestruturas digitais, o resultado destas discussões poderá indicar o grau de alinhamento político e económico entre dois blocos que, historicamente, partilham ligações culturais mas ainda procuram consolidar uma agenda tecnológica comum.

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