Europa procura a energia que a IA vai exigir

A ronda de 411 milhões de euros captada pela Proxima Fusion mostra que a fusão nuclear deixou de ser apenas uma promessa científica distante. Ainda não há centrais comerciais, mas a pressão energética dos data centers, da cloud e da inteligência artificial está a transformar esta tecnologia numa aposta estratégica para a Europa.
7 de Julho, 2026

A startup alemã Proxima Fusion captou 411 milhões de euros para acelerar o desenvolvimento de uma central de fusão nuclear que espera ter operacional na década de 2030. A operação avalia a empresa, fundada há apenas três anos, em 2,4 mil milhões de euros e conta com investidores como a RWE, a Google, a XTX Ventures e a East X Ventures.

A dimensão da ronda confirma que a fusão nuclear entrou no radar dos grandes investidores tecnológicos e energéticos. A tecnologia continua experimental e não existem ainda centrais comerciais em funcionamento, mas o interesse está a crescer num momento em que a procura por eletricidade limpa, estável e abundante se tornou uma questão central para a economia digital.

A Proxima Fusion quer construir a sua instalação numa central nuclear desativada da RWE, na Baviera. O protótipo, chamado Alpha, deverá custar 2 mil milhões de euros. A empresa comprometeu-se a financiar um quinto desse valor, enquanto o estado da Baviera assumiu compromisso semelhante. O restante financiamento deverá vir do governo federal alemão e da União Europeia.

A leitura europeia é inevitável. A Alemanha encerrou os últimos reatores nucleares em 2023, depois de anos de afastamento da energia nuclear na sequência do desastre de Fukushima, em 2011. A fusão permite reabrir parte dessa discussão por outra via, menos associada ao modelo nuclear tradicional e mais próxima da política industrial, da segurança energética e da autonomia tecnológica.

Para os decisores tecnológicos, o dado mais relevante talvez seja a presença da Google como investidor estratégico. A empresa já tinha acordado em 2025 a compra de 200 megawatts de energia à Commonwealth Fusion Systems, nos Estados Unidos. No caso da Proxima Fusion, não existem planos definidos para data centers, mas é facto que as grandes tecnológicas estão a olhar para a fusão como uma possível resposta futura ao crescimento do consumo energético da inteligência artificial, da cloud e das infraestruturas digitais.

A RWE investiu 25 milhões de euros nesta ronda. A Proxima Fusion afirma ter assegurado mais de 650 milhões de euros até agora, incluindo 95 milhões de euros em subsídios públicos. Mais de 90 por cento dos seus investidores são europeus, um detalhe importante num setor em que os concorrentes norte-americanos continuam a levantar montantes superiores, como a Commonwealth Fusion Systems, que já captou quase 3 mil milhões de dólares.

A tecnologia da Proxima Fusion baseia-se num stellarator, uma câmara em forma de anel torcido que utiliza ímanes de elevada potência para conter plasma extremamente quente e criar reações nucleares. A empresa defende que esta abordagem é mais estável do que outras soluções, incluindo os tokamaks e os métodos baseados em lasers.

A fusão nuclear ainda não é uma solução energética para os data centers de hoje, mas já começou a influenciar as decisões estratégicas sobre os data centers de amanhã. Para os CIO, operadores de infraestrutura e investidores tecnológicos, o ponto central não está na promessa imediata, mas no sinal de mercado. A energia tornou-se uma variável crítica da transformação digital.

A ronda da Proxima Fusion não elimina as dúvidas técnicas, económicas e regulatórias que continuam a marcar a fusão nuclear. Mas mostra que a Europa procura posicionar-se numa tecnologia que pode cruzar energia limpa, soberania industrial e capacidade computacional. Num mundo em que a inteligência artificial exige cada vez mais eletricidade, a pergunta deixou de ser apenas que modelos serão treinados. Passou também a ser quem terá energia suficiente para os alimentar.

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